Presidente retoma montagem da equipe
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de dezembro de 1998
Adriana Fernandes e Tânia Monteiro Agência Estado 
Considerando encerrada a crise política imposta pelo grampo no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que determinou importantes baixas no primeiro escalão do governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso retomou a montagem da equipe do seu segundo mandato. O ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, embaixador José Botafogo Gonçalves, já foi convidado a assumir a Secretaria executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), em substituição a José Roberto Mendonça de Barros, um dos cinco colaboradores que deixaram o governo nos últimos dias. É uma alternativa, está na mão do presidente, afirmou Botafogo, sem confirmar o convite do presidente. Eu sou um funcionário público.
O nome do presidente da Usina Hidrelétrica de Itaipu, Euclides Scalco, tem sido apontado como o provável novo coordenador político do governo, papel que foi desempenhado pelo ex-ministro Sérgio Motta, que morreu em abril. Coordenador político da campanha que reelegeu o presidente Fernando Henrique, Scalco vai centralizar funções divididas também com o ex-secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge Caldas, que não deve voltar à sua sala no Palácio do Planalto ao longo do segundo mandato.
O vice-presidente Marco Maciel também já foi convidado para assumir o Ministério da Defesa, mas ainda não aceitou. Na semana passada, o presidente voltou a consultar seus auxiliares mais próximos e os políticos mais influentes da coligação que o sustenta, para saber que formato dar ao staff que vai acompanhá-lo pelos próximos quatro anos. Mais do que indicações, foram discutidos o formato dos novos ministérios e também o momento mais adequado para anunciar a nova equipe.
O novo ministério, confirmou Fernando Henrique, será anunciado no dia 1º de janeiro, durante a cerimônia de recondução. A decisão já foi tomada pelo presidente, a despeito da controvérsia que divide seus aliados: há os que defendam que a reforma ministerial seja postergada até que o ajuste fiscal seja concluído pelo Congresso, tese defendida principalmente por políticos do PMDB, para quem a briga por espaços no novo governo pode comprometer a aprovação das medidas.
Rapidez e firmezaE há os pensam exatamente o oposto, que o presidente deve agir com rapidez e firmeza, para minar a disputa por poder que culminou na saída de alguns dos seus colaboradores mais próximos. Essa é a opinião do PSDB, o partido de Fernando Henrique, que continua exigindo a criação do Ministério da Produção - nos mesmos moldes originais, pensado para o ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros - e a indicação de um tucano para o cargo.
O presidente gostaria de chegar com uma nova composição a 1º de janeiro, comentou o senador Jorge Bornhausen, que conversou com Fernando Henrique sobre o assunto na semana passada. Só não sei se o tempo é suficiente para isso, acrescentou. O presidente do PFL ressalvou, contudo, que a menos de um mês para a posse, talvez não haja tempo hábil para a formação dos Ministérios e indicação dos nomes para a equipe do segundo mandato. O tempo é curto e todos vão embora por causa do Natal e do Ano Novo, e ainda tem problema de avião, acentuou Bornhausen. Há quem aposte em uma reforma ministerial escalonada.
O presidente, entretanto, vem ponderando com seus interlocutores que embora o tempo seja, de fato, curto, seus projetos para o segundo mandato não podem ficar na dependência da aprovação do ajuste fiscal.
Mesmo confiante de que as votações serão concluídas com rapidez, Fernando Henrique sabe que o Congresso tem o seu ritmo próprio e que, por algum motivo alheio à sua vontade, os políticos poderão esticar a votação das propostas por um tempo indefinido. Quem garante quando as votações serão concluídas? comentou um assessor ligado ao presidente.
Além disso, o resultado positivo da última pesquisa do Ibope, publicada há uma semana, que deu 59% de aprovação ao seu governo, animou Fernando Henrique em levar adiante a sua idéia inicial de entrar o novo mandato com novos ministros. O presidente considerou excelente o resultado da pesquisa, principalmente depois da sucessão recente de escândalos que atingiram em cheio a alma do governo - o Dossiê Cayman e a divulgação das gravações clandestinas feitas no BNDES, que colocou sob suspeita a privatização do Sistema Telebrás.
Fernando Henrique ainda não tinha conhecimento do resultado de pesquisa do Instituto Vox Populi, divulgada na última quinta-feira, demonstrando que já mudara o sentimento da população. Segundo 37% dos entrevistados, o presidente esteve envolvido no favorecimento de empresas privadas durante a privatização das teles. Além disso, 23% dos brasileiros ouvidos pelo instituto acreditam que os documentos que se convencionou chamar Dossiê Cayman - que comprovariam uma suposta sociedade do presidente com outros políticos tucanos em uma empresa naquele paraíso fiscal - são verdadeiros.


