Rio de Janeiro - O economista Celso Furtado afirmou ontem, após reunião com o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que o principal desafio do novo governo será conjugar as restrições orçamentárias com a necessidade de investimentos na área social. Para ele, ''constrangimentos'' provocados por compromissos firmados anteriormente, como superávit primário por exemplo, ''dão muito pouco espaço para manobra ao País''. ''Mas Lula tem uma capacidade de mobilização muito grande e, portanto, não excluo a possibilidade de que ele rompa esses constrangimentos''.
O economista, entretanto, acredita que este rompimento ocorrerá de maneira gradual e negociada. ''É um projeto de paz e busca de entendimento com os credores'', disse, referindo-se ao projeto de Lula para governar o Brasil.
Questionado sobre a atuação da equipe econômica do PT, como o economista Guido Mantega e o senador eleito Aloizio Mercadante, Furtado disse que ela está apenas ''tentando encontrar uma forma de atravessar esta fase final e dançando de acordo com a música do atual governo''.
Para ele, por isso, ainda ''não há propriamente um projeto, o projeto está na cabeça do Lula, é ele quem dará a última palavra''. O economista disse que este projeto de Lula está relacionado a uma tentativa gradual de vencer os obstáculos ou ''constrangimentos'' que se colocam ao novo governo. Ele citou várias vezes as análises sobre o Brasil que vem acompanhando em publicações especializadas estrangeiras e alertou que qualquer ''rompimento maior'' com o setor financeiro internacional poderia colocar o Brasil em situação semelhante a que vem sendo vivida na Argentina. ''Se o Brasil declarar moratória será a falência'', afirmou. ''Para o Brasil, sair para o conflito é muito perigoso, porque a situação do país é frágil no mercado internacional'', alertou.
Furtado recebeu ontem pela manhã a visita do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, em seu apartamento em Copacabana, zona sul do Rio. Furtado frisou que está otimista. Ele disse ter ficado impressionado com a manifestação de carinho expressa ao presidente eleito por populares que aplaudiram várias vezes Lula na frente do seu prédio. ''Fico impressionado com este ardor popular. É um alívio para muita gente acreditar em alguma coisa''.
A economista Maria da Conceição Tavares, que também participou da conversa, disse que saiu ''com grande esperança'' do encontro com Lula. Segundo ela, foram tratadas questões de desenvolvimento do País, como a habitação e o combate à fome. ''Acho que as condições são favoráveis. Eu e o Furtado acreditamos que o Lula vai conseguir se entender com todos os setores da sociedade''.
Maria da Conceição disse ainda que a visita de Lula aos dois economistas foi uma forma de ''prestar uma homenagem''. A economista negou a possibilidade de participar oficialmente do governo Lula. ''Estou com 72 anos, detesto Brasília, irei para o subterrâneo'', afirmou.

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