O presidente do Instituto Atlântico, Bruno Valverde, afirmou ontem, em depoimento ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que o ex-procurador jurídico do município, Fidélis Canguçú, cobrava pessoalmente propina como condição para a liberação das parcelas referentes aos termos de parceria firmados com o Município. Segundo o advogado do acusado, Vinícius Borba, apesar de ser o quarto depoimento de Valverde, esta é a primeira vez que ele admite que foi coagido pelo ex-procurador.
O Instituto Atlântico - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) - responsável pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu), Central de Leitos, Endemias e Policlínica -, é uma das investigadas pela operação Antissepsia, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), na semana passada. A operação já prendeu 20 suspeitos de envolvimento.
De acordo com o advogado, Valverde confirma que teria depositado R$ 3 mil na conta da esposa de Canguçú, Joelma Aparecida da Silva.
''O pedido de pagamento foi feito através do Fidélis Canguçú. Ele cobrava propina, para que fossem feitos os pagamentos, referentes ao contrato de prestação de serviço por parte dos institutos. Da parte do meu cliente, tiveram os R$ 3 mil, mais os dois carros. Nós não estamos omitindo fato nenhum. Só não entro em mais detalhes por orientação do MP (Ministério Público)'', afirmou o advogado.
Quando questionado sobre porque Valverde nunca procurou a justiça para denunciar Canguçú, Borba alegou que esta medida foi tomada para preservar os funcionários da empresa. ''Nós temos cerca de 400 funcionários. Eles dependem desse salário. Não dá pra deixar esses contratos de trabalho serem descumpridos.''
Sobre a suposto envolvimento da primeira-dama do município, Ana Laura Lino, no ''esquema'', o advogado afirmou que este tópico está entre os questionamentos feitos pelo MP, porém não poderia revelar mais detalhes.
Durante o depoimento Valverde chegou a ser questionado sobre uma suposta negociação de compra de uma empresa de meio ambiente em associação com o ex-procurador. O caso passou a ser um desdobramento da investigação na última quinta-feira, quando o presidente da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), André Nadai, foi convocado a prestar depoimento na sede do Gaeco. Segundo as investigações, Valverde e Canguçú tinham planos de habilitar a empresa em processos de licitação na área do meio ambiente. De acordo com a promotoria a negociação só não se concretizou devido a operação Antissepsia. Valverde não quis falar com a imprensa e seu advogado não confirmou as acusações.
O coordenador do Gaeco, promotor Claudio Esteves, optou por não se aprofundar nas informações, porém ratificou as possíveis negociatas envolvendo Valverde e Canguçú. ''Isso já tinha sido objeto de outras oitivas. E existe, sim, essa possibilidade, que está sendo analisada'', afirma.
Esteves informou, ainda, que ontem, foram concedidos os pedidos de prorrogação das prisões temporárias de Flávio e Antônio Carlos Martis. Os irmãos, contadores que prestaram serviço para os institutos Gálatas e Atlântico, ainda não prestaram depoimento ao MP, devido problemas de saúde.
A FOLHA tentou entrar em contato com o advogado de Canguçu, Fernando Henrique Oliveira, mas ele não foi encontrado.

mockup