Brasília - Depois de 20 dias de negociação, o governo cedeu e entregou a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que vai investigar o mau uso dos cartões corporativos ao PSDB. A oposição ameaçava criar uma segunda CPI, no Senado, caso a base aliada resistisse a compartilhar o comando das investigações.
O entendimento foi possível depois da interferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que enquadrou o PT da Câmara e obrigou a bancada de deputados a aceitar dividir o comando da CPI com os tucanos. Parte dos petistas ficou, no entanto, insatisfeita com o acordo e ensaiou uma rebelião no início da noite de ontem.
''Estamos preocupados que se abra um precedente grave ao não cumprirmos a regra do jogo'', argumentou o líder do PT na Câmara, deputado Maurício Rands (PE). ''Foi uma concessão que o governo fez à oposição'', disse o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS). ''O melhor seria ter mantido o comando da CPI com as maiores bancadas do Congresso, que são o PT e o PMDB.''
O PSDB indicou a senadora Marisa Serrano (MS) para a presidência da comissão. Para a relatoria, foi designado o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ). Inconformados, os deputados petistas cogitaram propor uma troca de funções na CPI: o Senado ficaria com a relatoria da Comissão e a Câmara, com a presidência.
O PT da Câmara foi o maior empecilho nos últimos dias ao acordo com a oposição. Depois que foram enquadrados pelo presidente Lula, os petistas tentaram minimizar a importância da CPI. ''Essa CPI é totalmente dispensável porque o uso dos cartões corporativos já está sendo investigado pelo Ministério Público. Essa CPI serve mais para alimentar um ambiente de conflito'', observou Fontana.
O acordo é uma vitória do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que há mais de duas semanas trabalha para que a oposição fique com a presidência da CPI. Jucá argumentou que situação no Senado ficaria ''insustentável'', caso não se chegasse a um entendimento com a oposição. O acordo sobre o comando da CPI foi formalizado pela manhã, no Palácio do Planalto, em encontro com o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (PTB-PE), e os líderes Fontana e Jucá. Uma das condições impostas foi que o PSDB não poderia indicar o senador Jarbas Vasconcelos (PE), do PMDB.
''O mais importante neste momento é instalar a CPI para investigar. Meu nome estava servindo de entrave e obstáculo e, por isso, declinei do convite'', disse Vasconcelos. Ele havia sido convidado pelo líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), na sexta-feira passada, para presidir a CPI dos Cartões Corporativos. Ontem, recusou o convite ao saber que seu nome havia sido vetado pelo Planalto e pelo PMDB. Nos acertos com o PSDB, o governo também impôs que o escolhido para presidir a CPI não fosse um ''tucano raivoso''.
De perfil conciliador, a senadora Marisa Serrano chegou à presidência da CPI depois de ser uma das relatoras no Conselho Ética das denúncias contra o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL). A princípio, ela resistiu em aceitar o cargo por temer sair com a imagem chamuscada caso a CPI acabe em pizza. Mas depois cedeu aos apelos da cúpula tucana. ''Vou fazer o possível para que a CPI tenha resultado'', disse a senadora tucana, que é vice-presidente nacional do PSDB e pré-candidata à Prefeitura de Campo Grande (MS).
Com a partilha do comando da CPI entre governo e oposição, a comissão de inquérito integrada apenas por senadores foi engavetada ontem mesmo. ''Não há motivo para ter outra CPI no Senado', afirmou o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN). ''Duas CPIs seria muito desgastante'', observou o líder Romero Jucá. Apesar do acordo, a CPI mista ainda não tem data marcada para ser instalada. Os líderes partidários deverão indicar amanhã os 24 titulares (12 deputados e 12 senadores) e outros 24 suplentes que vão integrar a comissão de inquérito.

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