PREPAREM O BOLSO - Energia vai ficar mais cara
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quinta-feira, 24 de abril de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
A vitória do candidato de esquerda, Fernando Lugo, nas eleições gerais do Paraguai, marca um novo capítulo na história da América Latina. Após o triunfo, Lugo deixou claro que quer reajustar os valores da energia hidrelétrica comercializada ao Brasil. Mas, afinal, o que vem por aí?
Para o professor René Castro Berardi, coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Internacional de Curitiba (Facinter), o contrato entre Brasil e Paraguai será respeitado, só que o governo brasileiro deve ceder e aprovar aumento do preço da energia de Itaipu.
Autor do livro recém-lançado A América Latina e as Relações Internacionais - A Visão do Analista, Berardi fala de riquezas, conflitos e prognósticos, na entrevista à FOLHA.
Após a eleição do presidente Fernando Lugo, no Paraguai, seu vice, Federico Franco, afirmou que o Brasil deve pagar um preço justo pela energia que compra do Paraguai. O que vem por aí?
O Paraguai está sofrendo uma mudança institucional e política tal qual àquela que ocorre na América Latina, com a queda do Partido Colorado. Os objetivos do presidente Lugo são melhorar a distribuição de renda, fazer a reforma agrária - uma vez que o poder da terra por lá está muito mais concentrado do que no Brasil - e alavancar os rendimentos, o que será possível através de sua maior arrecadação, isto é, proveniente da Itaipu. Com isso, as pressões estão na ordem do dia.
E o Brasil vai suportar as pressões?
Não sei se vai agüentar. Acredito que o Brasil vai pagar um preço mais alto pela energia hidroelétrica, sem haver alteração no contrato. Será algo similar ao que houve com a Bolívia e a questão do gás natural.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse que a vitória da esquerda no Paraguai traz o padre que nos faltava, ao se referir a Lugo. Para o senhor, o futuro do país está mais para anjos ou demônios?
Se de fato houver essa briga até o fim pelo preço da energia comercializada pela Itaipu e Lugo conseguir, também, implementar a reforma agrária, teremos mudanças efetivas. Contudo, essas mudanças vão ser lentas. Os prognósticos apontam para a lentidão nas mudanças porque a base do Partido Colorado, derrotado nas últimas eleições, está muito forte entre o aparelho público, que rege o sistema.
Como vão as relações internacionais do Brasil, num contexto geral?
O Brasil, ao lado do México, é um dos países mais bem articulados da América Latina, onde temos dois blocos de países bastante distintos. De um lado, Bolívia, Equador e Venezuela com suas riquezas. De outro, Chile, Colômbia e Peru, que têm sérios problemas energéticos e estão em consonância com a política dos Estados Unidos. O Brasil fica em uma posição privilegiada, pois articula com os dois blocos, o que é interessantíssimo.
O senhor cita o México, ao lado do Brasil, como o campeão das boas relações. Quem ganha o embate: a política de Lula ou de Felipe Calderón?
São objetivos diferentes. O México é muito articulado, mas essa articulação é diferente e trata da vizinhança: transita muito bem entre seus vizinhos da América Central. O Brasil, por sua vez, sustenta boas relações com a América do Sul e com os Estados Unidos.
Em relação aos prognósticos para o Brasil, o País deve manter a posição estratégica que ocupa hoje?
A tendência é se manter por várias razões: a primeira refere-se ao fato de o Brasil estar desenvolvendo um processo econômico salutar, o que gera confiança entre os muitos países com os quais mantém relações comerciais. O Brasil é, também, forte gerador de energia e hoje muitos países que estão ao seu redor não detém tal riqueza. Como último ponto, o Itamaraty preza pelas boas relações e a política externa brasileira está voltada a beneficiar muitos de seus vizinhos. Como não gera e nem é um facilitador de conflitos, o Brasil está muito integrado e é peça-chave no panorama mundial.


