A Prefeitura de Londrina tenta administrativa e judicialmente retomar pelo menos 52 áreas doadas em gestões anteriores que não foram usadas conforme estava previsto nas leis municipais que autorizaram as permissões de uso. Um dos casos mais emblemáticos é um terreno de 9,2 mil metros quadrados doado, sob muita polêmica, em 2004, na administração do ex-prefeito Nedson Micheleti (PT), à Associação Beneficente Galvão Bueno, cuja reversão já ocorreu administrativamente.
Localizada em área nobre – o Jardim Vale do Reno (zona sul), a área deveria abrigar a sede da associação, "com a finalidade de desenvolver atendimento social, educacional, cultural e esportivo de crianças, jovens e adultos carentes de recursos e empreender iniciativas destinadas à promoção das pessoas idosas", conforme prevê a lei de doação.
Porém, passados 10 anos, apenas a sede foi construída, mas nenhum atendimento foi feito no local, uma estrutura com cerca de 700 metros quadrados, com sala de reunião, sala de aula e salas administrativas. Ao lado da sede, no mesmo terreno doado pela prefeitura, foram erguidas as paredes do que seria um ambulatório para atendimento de idosos, mas a obra, que deveria ter sido concluída em 2008 (após prorrogação da validade da lei por dois anos), ficou inacabada.
A presidente da entidade, Mildred dos Santos Galvão Bueno, mãe do locutor esportivo, disse que desistiu do ambulatório em razão da localização. "O acesso é difícil e as pessoas não conseguem chegar até aqui", relatou, referindo-se à dificuldade de a população carente se deslocar à área nobre da cidade, atendida por poucas linhas de ônibus. Questionada se houve equívoco da associação, ou da então administração, ao ceder uma área em local inadequado para serviços assistenciais, Mildred disse que "acho que sim". "No começo, fiquei muito feliz porque achei que era um lugar muito legal, mas, depois, com o tempo, a gente foi sentindo a dificuldade e mudamos o esquema de atendimento", explicou.
Para compensar a falta de atendimento no local, a associação faz suas atividades itinerantes com o "ônibus odontológico" para consultas e procedimentos bucais em alguns bairros, em parceria com uma empresa de ônibus, e um mutirão médico com múltiplas especialidades realizado por profissionais voluntários entre duas e três vezes por ano. Em 10 anos, foram 3.370 atendimentos odontológicos e 1.821 atendimentos médicos, segundo informou a associação. A associação tem três funcionários administrativos e uma dentista.
O secretário de Gestão Pública, Rogério Dias, explicou que o processo de reversão é automático, já que a lei de doação prevê que o descumprimento da finalidade implica a perda do terreno e de eventuais benfeitorias. Mildred, que é presidente do Provopar desde a administração passada, embora aceite devolver a área onde está a obra inacabada, disse que pretende ficar com a área onde está a sede. "O que eu pretendo é entregar somente a área ao lado. A associação vai continuar atendendo. Pretendo fazer uma escola de padeiro aqui", afirmou.
Porém, o secretário disse que não existe "reversão parcial". "Toda a área foi retomada e será repassada a outra entidade. E a senhora Mildred sabe disso." A outra entidade é a Associação Celso Charuri, entidade de alcance internacional que difunde a "filosofia de desenvolvimento mental do grupo Pró-Vida". Segundo o representante da associação em Londrina, Ywao Miyamoto, a entidade existe há 12 anos em Londrina. Em outubro do ano passado, obteve título de utilidade pública. "Nós requisitamos a doação porque nossa sede é muito pequena e outras cidades já doaram terrenos à nossa associação", disse Miyamoto.

Igreja
Outra área, de mil metros quadrados, cuja finalidade não foi cumprida, está localizada no Conjunto Jácomo Violin (zona norte). Foi doada em 2004 à Associação Londrinense de Assistência (Aliança) para a construção de um templo religioso. Apenas a casa do diácono foi erguida. No começo de 2013, o município obteve reintegração de posse em ação que tramita na 1ª Vara da Fazenda Pública. Porém, em maio passado, a própria prefeitura pediu a suspensão do processo. "Estamos aguardando o envio à Câmara de projeto de lei para prorrogar o prazo de edificação. Foi isso o que ficou definido em conversa com o prefeito Kireeff", disse o presidente da entidade, Cloves Pinho.
O secretário de Gestão disse que à medida que a fiscalização detecta áreas em desvio de finalidade, o setor de patrimônio inicia o processo de retomada administrativa ou judicial.

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