Com bons salários, se comparados com a média dos trabalhadores brasileiros, a maioria dos prefeitos da Região Metropolitana de Londrina (RML) admite que parte dos seus vencimentos acaba sendo revertida em assistencialismo. Levantamento feito pela FOLHA junto aos políticos revela que muitos atendem às investidas de eleitores que buscam soluções imediatas para necessidades básicas como a compra de remédios, combustíveis, passagens e até de tijolos. Embora reconheçam que a prática não é adequada, os administradores negam interesse político com as doações.
Entre os prefeitos ouvidos, alguns chegaram a dizer que comprometem de 30% a 40% do vencimento mensal com ajudas individuais. Em Sertanópolis, o prefeito Tide Balzanelo (PT), que recentemente reduziu o próprio salário de R$ 19 mil para R$ 14 mil, afirmou que fica "sensibilizado" com as carências da população. "É claro que o prefeito não é obrigado a dar, mas a gente acaba se sensibilizando. Acredito que isso não dá voto nenhum, pois sempre foi assim e as pessoas acabam tendo o prefeito como referência."
O prefeito de Jataizinho, Elio Duque (PDT), já tem até a média mensal que fica para atender às necessidades de última hora dos moradores. "40% do salário vai para ajudar a população. Já me pediram remédios, dinheiro para comprar porta, tijolo, viagem." Ele alegou que é difícil negar. "Eu cresci na cidade, a gente conhece quase todo mundo, as pessoas vem pedir ajuda não só porque é o prefeito, mas é pela amizade, pelo conhecimento. Fica complicado negar."
Em Bela Vista do Paraíso, o prefeito João Monza (PDT) admitiu que eventual redução do salário dele poderia comprometer o orçamento pessoal. "Se for preciso reduzir, a gente reduz, mas vou te dizer, a dor de cabeça é grande. Gasto de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil por mês só com remédios para pacientes da cidade. A gente acaba tirando do bolso para não deixar um amigo sofrer." Ele justificou que não pode tirar do caixa da prefeitura para bancar as necessidades individuais, "porque não tem orçamento e aí seria contra lei, então a gente acaba ajudando do bolso".
O prefeito de Primeiro de Maio, Daniel Renzi (PSDB), também confirmou o assédio da população. "Aqui a gente não foge do problema e se eu reduzir o meu salário, vou pagar para trabalhar. Às vezes tem que tirar dinheiro do bolso, porque tem situações em que o município não tem condições de resolver legalmente e a gente tem que dar um jeito." Walter Tenan (PSDB), prefeito de Porecatu, lembrou que a procura dos eleitores necessitados ocorre em todos os lugares, não só na prefeitura. "É gente o dia inteiro pedindo algum tipo de ajuda, como passagens, remédios e gasolina. O munícipe bate palma na casa do prefeito e a gente acaba ajudando, vai fazer o quê. Isso ocorre sempre."
Em Sabáudia, Hugo Manueira (PSD) informou que do começo da gestão até agora já deve ter tirado do bolso uns R$ 10 mil para as demandas diárias da população. "As pessoas pedem remédio, viagens, tem conta de luz atrasada." Apesar disso, com orçamento municipal apertado e folha de pagamento beirando o índice da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), ele não descartou abrir mão do salário temporariamente.
O prefeito de Pitangueiras, Toninho Kolachinski (PSDB), deu depoimento semelhante. "Sempre tem gente pedindo ajuda, principalmente remédio." Ele reconhece que a prática não é a mais adequada. "Mas o que eu vou fazer se tem uma criança precisando de um remédio que não tem na cidade? Vou deixar correr o risco?" Ele lembrou que a situação não se resume ao prefeito, pois os pedidos são feitos também aos vereadores. "Mesmo quando eu não era político, sempre ajudei quando me procuravam, em cidade pequena é assim."
Em Florestópolis a demanda maior é por combustível e passagem. O prefeito Onício de Souza (DEM), o Nicinho, disse que "no município a gente tem controle de frota, controle de gasto com combustível, mas quando aparece alguém precisando viajar de última hora porque morreu um parente em outra cidade, a gente tem que atender e acaba sendo com dinheiro próprio." Questionado se os prefeitos não acabam incentivando isso, negou. "Eu tento cortar, implantar essa educação política, mas é uma coisa que vem de longo prazo e se tirar do dia pra noite, a gente é que passa por ruim."

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