Curitiba - Desta vez o prefeito de Bocaiúva do Sul, Região Metropolitana de Curitiba, Elcio Berti (PFL), se deu mal. A Polícia Civil está instaurando inquérito contra Berti pelo crime de abuso de autoridade e por infringir lei federal. No caso, a Constituição. O prefeito baixou, na terça-feira, um decreto proibindo residência fixa ou permanência de homossexuais na cidade. O grupo Dignidade, que defende os direitos dos homossexuais no Paraná, está preparando a documentação para entrar com um mandado de seguraça na Justiça pedindo a nulidade do decreto. A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Paraná também deve enviar uma reclamação à Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, em Brasília, para ser instaurado um procedimento contra Berti por discriminação sexual.
A alegação do prefeito é de que de a homossexualidade ''ridiculariza a instituição do casamento como natural para a geração e educação de filhos e desrespeita as famílias dignas de Bocaiúva''. Contudo, o delegado-chefe da divisão da Polícia Metropolitana, Agenor Salgado Filho, diz que Berti afrontou as garantias individuais dos cidadãos, previstas na Constituição Federal. ''Desta vez o prefeito cometeu um crime. Não importa se o decreto é só para aparecer ou não. Temos que cumprir a lei e proteger as vítimas'', afirmou. A polícia vai ouvir homossexuais já esta semana e ainda antes do Natal pretende ouvir Berti. Caso o prefeito de Bocaiúva seja condenado, pode sofrer pena de dois a quatro de prisão e até mesmo perder o mandato. O inquérito deve ser concluído em 30 dias.
Representantes do grupo Dignidade estiveram ontem em Bocaiúva do Sul para ajuizar um mandado de segurança contra o decreto. Contudo, o presidente da entidade, Toni Reis, contou que eles se depararam com a prefeitura fechada e receberam a informação de que Berti havia viajado. Por isso, não puderam pegar uma cópia do decreto, que até ontem não havia sido publicado no Diário Oficial Municipal, para anexar ao processo. Reis afirmou que ele e diversos manifestantes gays vão voltar hoje pela manhã à cidade para fazer uma manifestação contra a atitude de Berti e para dar entrada com o mandado de segurança. ''Queremos também que a Câmara de Vereadores instaure uma Comissão de Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar esse ato inconstitucional do prefeito e pedir sua cassação'', disse Reis.
''Na minha cidade não tem viadagem'', justificou Berti, que atendeu a reportagem da Folha ontem à tarde na prefeitura. Para ele, o decreto é só uma forma de defender os interesses da população. O prefeito afirma que seria ''uma ofensa às famílias e poderia confundir as crianças dois homens andando de mãos dadas ou se beijando na rua''. E quanto ao inquérito, alegou apenas que ''cada cabeça tem uma sentança'' e que sua intenção é de defender o povo e, se a Justiça decidir contrário ao decreto, ele acatará. Quando questionado se não estaria sendo preconceituoso, o prefeito afirmou que não vê discriminação, já que os homossexuais não trazem benefício nenhum. ''Seria discriminação se eu mandasse embora um preto trabalhador. Mas os homossexuais não têm pulso firme para o trabalho. Um homossexual não pega no pesado em uma indústria'', argumentou.

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