Imagine que, a menos de duas semanas para o Natal, seu salário seja reajustado em mais de 170% para valores que vigorem já no primeiro dia do ano que está por vir e assim continue, fixamente, todo mês, até 2012. Se depender da Câmara de Vereadores de Tamarana (62 km ao sul de Londrina), será esse o horizonte financeiro a ser vislumbrado pelo prefeito reeleito Beto Siena (DEM), a partir de 1º de janeiro, graças ao projeto de lei recém-aprovado que eleva o atual subsídio do chefe do Executivo dos atuais R$ 4.700 para R$ 12.800.
A matéria foi aprovada em segunda e última discussão anteontem, na última sessão extraordinária do ano no legislativo local, e reajusta também o vencimento do vice-prefeito de R$ 1.410 para R$ 4.200. Conforme a última contagem populacional do IBGE, Tamarana tem 10.887 habitantes (dados de 2007).
O projeto de lei - ainda não sancionado por Siena - é de autoria do líder do Executivo, Plínio Pereira de Araújo Jr (PTB), que viu a proposta passar por cinco votos a dois, no segundo turno de votação. O documento ainda fixa os subsídios do alto escalão do Executivo: são valores que vão dos R$ 3 mil a serem recebidos pelo chefe de gabinete, por exemplo, aos R$ 6 mil (valor mais alto) do futuro secretário municipal de Fazenda. Outras três secretarias e pastas e duas pastas com status de secretarias tiveram valores fixados ora em R$ 4.200, ora em R$ 3.200.
A aprovação aconteceu exatamente dois dias depois de o município comemorar os 13 anos de emancipação política de Londrina. O ''presente de Natal'' antecipado, como o reajuste passou a ser chamado nos bastidores, encontrou resistência de apenas três parlamentares - um dos quais, o presidente da Câmara, Edevir Antunes de Menezes (PSDB), não-reeleito para o terceiro mandato e que, alegou, não pode votar esse tipo de matéria.
Na avaliação de Menezes, o acréscimo de salário pode ser assim definido: ''É abusivo. Como município ainda muito novo, o salário não precisa ser tão alto: mesmo porque, se o prefeito tem que se deslocar para Londrina, Curitiba ou Brasília, por exemplo, ele não só tem diárias como também combustível à disposição''. O presidente explicou que a Procuradoria Jurídica da Casa consultou o Tribunal de Contas do Paraná (TC-PR) sobre o reajuste. Qual a resposta? ''A Procuradoria disse que o plenário podia aumentar, pois ouvira do TC que, se desse algum problema nas contas, depois, seria no máximo para o autor, não para mim'', eximiu-se.
O reajuste aprovado esta semana derruba um outro, aprovado em plenário e sancionado por Siena em 21 de dezembro do ano passado, e que já praticamente dobrava o salário atual para o próximo mandato. Em vez dos R$ 12.800 de agora, a lei municipal 535/2007 estabelecia salário de R$ 8.230 para o prefeito, e R$ 2.800 para o vice.
A FOLHA não conseguiu contato com Siena anteontem, tampouco ontem - nem na Prefeitura, onde não foi localizado desde manhã, nem pelo celular, já que não atendeu as ligações da reportagem.

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