Prefeito chama propina de 'imprudência' e nega renúncia
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Loriane Comeli <br>Reportagem Local 
Depois de fugir da imprensa por quase uma semana, o prefeito de Londrina, José Joaquim Ribeiro (sem partido), adotou uma postura de ingenuidade e atendeu ontem individualmente os jornalistas, disse que ter recebido propina foi uma ''imprudência'' e garantiu que fica no cargo, mesmo na iminência da abertura de uma Comissão Processante (CP) pela Câmara Municipal, que pode resultar na cassação de seu mandato. Ribeiro, no entanto, mudou a versão apresentada em depoimento ao Ministério Público (MP) no último dia 3.
Naquela ocasião, afirmou que recebeu R$ 150 mil de José Lemes, sócio de uma das empresas que forneceram uniformes em 2011 e 2012 para o município, ficou com R$ 50 mil para pagar dívidas de campanhas; entregou R$ 50 mil ao seu antecessor, Barbosa Neto (PDT), de quem era vice-prefeito; e o restante foi repassado a Lindomar Mota dos Santos, que foi secretário de Fazenda de Barbosa e de Ribeiro, neste mandato tampão.
Ontem, Ribeiro encurtou a história. Admitiu ter recebido o dinheiro, mas não ficou com ele. ''Fui apenas um mensageiro'', disse ontem. ''Entreguei todo o valor unicamente ao Barbosa'', acrescentou. E ao ser perguntado se aceitaria uma acareação com o ex-prefeito, foi suscinto: ''Sim''.
Questionado sobre o motivo da mudança da narrativa, o prefeito disse ter se sentido pressionado pelos promotores. ''Você acha que eles tratam assim que nem vocês estão conversando comigo? É danado.'' Porém, ao ser perguntado se foi induzido a falar o nome de Lindomar ou a admitir ter ficado com R$ 50 mil, Ribeiro negou. ''Eles falaram do Lindomar, mas não houve indução. É que as perguntas são muito fortes. Eles têm um jeito de trabalhar que te deixa maluco.''
Mais do que a ''imprudência'' por receber propina, Ribeiro considera maior o erro de ter prestado depoimento aos promotores, ''sem advogado e sem conhecer o processo''. ''Eu não deveria ter feito isso (ido ao Gaeco). Na minha inocência, acabei arrumando problema.''
Depois de confessar o recebimento do dinheiro ao MP, Ribeiro disse ''ter perdido o rumo'' e que está tomando medicamentos. Foi a Curitiba, conversou com líderes de seu então partido, o PSC (mas não teria se encontrado com Ratinho Jr., presidente estadual da legenda) e foi aconselhado a deixar a sigla. ''Eles ficaram preocupadíssimos e me pediram que eu saísse do partido'', relatou. ''Voltei a Londrina e só então procurei um advogado.''
Sobre o destino da propina, Ribeiro, além de garantir que não ficou com nenhuma parte, afirmou que tratou-se de ''uma ajuda de campanha''. ''Essa palavra, propina, não (recebi). Recebi ajuda de campanha e ela foi transferida.'' Segundo ele, o dinheiro se destinava a saldar dívidas de campanha de 2010, nas eleições gerais, e de 2008/2009, quando Barbosa elegeu-se prefeito no ''terceiro turno''. ''O dinheiro foi para as duas campanhas.''
Ribeiro não revelou para quais campanhas ou quais fornecedores foram beneficiados. ''Em campanha política, os recursos vem de várias formas. As campanhas têm um custo alto e via de regra candidato nenhum tem dinheiro para fazer campanha, e fazem. Então muitas vezes o dinheiro pode não ser contabilizado'', afirmou o prefeito. ''Não estou admitindo que havia caixa dois. Qualifico meu ato como uma imprudência, por não ter dito ao cidadão: Entregue você o dinheiro.''
Para o prefeito, ficar no cargo implicará menos problemas à cidade, afinal, disse ele, faltam 110 dias para o final do mandato. Porém, questionado sobre a falta de credibilidade de seu governo e a possibilidade de curvar-se à opinião pública, Ribeiro atribuiu parte da pressão ao momento eleitoral. ''É uma pergunta pertinente, mas o momento político é muito complicado. Essa pressão política não é uma coisa normal. Se não fosse época de eleição, a situação seria diferente.''
Ele também se queixou da posição praticamente unânime das entidades de classe, que pedem sua renúncia. Disse que quando deixou o governo de Barbosa, em junho do ano passado, no auge da crise na saúde e da investigação acerca de desvio de recursos que envolviam Barbosa, procurou os empresários, mas não houve nenhuma manifestação contundente. ''Eu não vi nenhuma reação deles. Quanto a mim, foi muito rápido. Não esperaram nem chegar a denúncia ao Fórum. Foi muito estranho.'' Quando saiu do governo de Barbosa, Ribeiro disse que sentia ''vergonha''. Não demonstrou o mesmo sentimento agora. ''Não participei da compra dos uniformes. Nem sabia o que era carona. Somente transferi o dinheiro.''
O prefeito também demonstrou mágoa de seu ex-líder na Câmara, Antenor Ribeiro (PSC), que renunciou ao cargo logo após saber da confissão do chefe do Executivo. Disse ter dado cargos para indicação do vereador. ''Ele viu uma situação de oportunidade, nem esperou eu voltar de Curitiba.'' O prefeito também admitiu ter dado cargos a outros vereadores, mas não mencionou nomes. ''Não vou mencionar nomes porque isso pode até me complicar, mas cada um sabe que cargos ganhou. Não houve loteamento. As funções de chefia fui eu que indiquei.'' Sobre um novo líder na Câmara, ''vou ver se algum deles quer ser meu líder numa situação dessa''.
Sobre a possibilidade da abertura de uma CP, o prefeito esquivou-se. ''É claro que qualquer um tem um sentimento de dor numa situação como essa. Não sei como vai ser, tenho as obrigações de prefeito para cumprir'', afirmou, acrescentando ter o apoio dos secretários municipais.
Barbosa Neto
O ex-prefeito Barbosa Neto (PDT) voltou a negar que tenha recebido dinheiro das mãos do então vice-prefeito e ameaçou processá-lo por calúnia. Por meio de nota, Barbosa afirmou que ''como réu confesso o senhor Ribeiro não tem autoridade moral nem condições para sustentar o que está dizendo''. O ex-prefeito disse que não participou de nenhuma negociação ilegal com a empresa G8. ''Se eu cometi algum erro foi quando me licenciei da prefeitura em 2010 e ele assumiu para emporcalhar as mãos na sujeira que agora é descoberta'', atacou. Na época, Barbosa se afastou da administração para participar da campanha de Osmar Dias (PDT) pelo governo do Estado. (Colaborou Edson Ferreira)


