Paulo Wolfgang/FolhaVolta por cimaDorcelina: ‘‘Até hoje eles não se conformam que uma sem-terra e portadora de deficiência venceu as eleições’’Quando começou a participar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Mato Grosso do Sul, a então professora Dorcelina Folador, filiada ao PT, jamais imaginaria ser a primeira prefeita do País eleita com o apoio do MST. Ela é a primeira mulher a administrar Mundo Novo, município de 17 mil habitantes, na divisa com o Paraná, fronteira com Paraguai.
Sua experiência de nove anos no MST, quatro deles como repórter popular, a fez driblar o que ela chama de ‘‘máfia da fronteira’’, ao disputar a eleição com políticos tradicionais. Dorcelina, 34 anos, não se intimidou com as ameaças de ex-políticos experientes que queriam voltar ao poder e tentaram fragilizar sua campanha eleitoral. ‘‘Eles acharam que eu, como mulher, ia desistir da disputa’’, lembra, dez meses depois da posse.
Ela ainda não esqueceu os ataques de campanha. ‘‘Até hoje eles não se conformam que uma mulher, sem-terra e portadora de deficiência, venceu as eleições’’, explica Dorcelina, que teve paralisia infantil. Ela relembra ter ‘despachado’ a filha de seis anos para Assis Chateaubriand, Oeste do Paraná, durante toda a campanha eleitoral, para poupá-la de ataques. A menina ficou na casa da irmã de Dorcelina. Já sua outra filha, de dois anos, passou o período de campanha vigiada por ‘‘companheiros’’ do MST. ‘‘Temia pela integridade da minha família’’, conta.
Hoje, o açougueiro César, marido de Dorcelina, assumiu o papel de ‘‘mãe’’. Sobrou para o marido a tarefa de coordenar a casa e buscar as meninas na escola. ‘‘Invertemos os papéis, sem nenhum constrangimento’’, garante a prefeita.
Das lições que ela aprendeu com o MST e levou para a prefeitura estão a participação popular, a tomada conjunta de decisões e a divisão de tarefas. Para administrar, Dorcelina implantou um conselho político, ‘‘formado por oito companheiros’’, além de um conselho de administração popular e o orçamento participativo. ‘‘Fomos a primeira cidade do Mato Grosso do Sul a pôr em prática o orçamento participativo’’, orgulha-se.
A prefeita alega que nada é melhor que o povo para definir prioridades e investimentos. ‘‘Até agora não me arrependi de ter descrentralizado o poder’’, garante. O programa de governo dá ênfase à agricultura, saúde, educação e ao emprego.
‘‘As ações só não são maiores e mais ousadas porque falta dinheiro’’, justifica. Mesmo assim, Dorcelina não se acanhou de contar com a ajuda dos companheiros do MST e promoveu uma limpeza geral na cidade no mês de junho, durante a semana do meio ambiente. ‘‘Foram recolhidas mais de 200 toneladas de lixo’’, recorda.
A prefeita explica que não tinha condições de contratar funcionários para o mutirão por causa das dificuldades financeiras. ‘‘Assumi uma dívida 4 milhões de reais e quatro folhas de pagamento em atraso. Não dava para contratar e precisava melhorar a cidade’’, explica.
Dorcelina conta ter apelado para os sem-terra, que ‘‘vieram em troca somente da comida’’. Eles ficaram hospedados no salão paroquial e não fizeram apenas o recolhimento do lixo como também a pintura de meio-fio, plantio de flores e o embelezamento da cidade. ‘‘Valeu porque a população entendeu, se envolveu e colaborou também’’, diz, satisfeita.

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