No Distrito de São Luiz (Zona Sul), desde que o assunto ''compra de votos'' veio à tona, com a presença de viaturas do Gaeco na noite da última quarta-feira, qualquer menção a quem trabalhou ou a quem teria recebido na campanha passada parece ter ganho um código único entre os moradores: o do silêncio.
Em um estabelecimento comercial, depois de não ser localizado na casa dele, um dos depoentes ao MPE - considerado peça-chave na investigação - confirmou ter sido cabo eleitoral que cooptou eleitores e os pagou, supostamente a mando de Joel Garcia (PDT), em conversa com a FOLHA. Mas pediu anonimato: ''Essa noite eu nem dormi. É muita gente me ligando, revistaram minha casa... o que tinha pra falar, falei ontem (anteontem, ao Gaeco)''. Leia, a seguir, trechos da entrevista. (J.G.)
O próprio Joel o contratou?
Sim, porque ele prometeu um cargo de assessora de gabinete pra minha filha, que faz Direito. Ele me enganou. Está tudo escrito lá no MP. Ele pediu pra eu contratar o pessoal como fiscal, e quando chegou um dia antes da eleição, mudou a conversa. Falei aos promotores que não sabia onde estava a lista (de eleitores), mas aí 'deram revista' e acharam a relação de nomes que eu tinha pegado. Nessa que estavam os valores (supostamente pagos).
O senhor que cooptava os eleitores?
Não era só eu. Não era só eu.
Vocês se reuniam em algum lugar, com o vereador, para definir para onde iriam, por exemplo?
Era tudo na casa do pessoal, ele vinha, conversava, era cabo eleitoral dele. Esse negócio de compra de votos é um câncer que tem nessa política, e não é só esse Joel não, são todos os candidatos que vêm comprar voto em dia de eleição. Mas aquele que é mais visado... foi brigado com o prefeito, e o Barbosa (Neto) é meu amigo, conheço ele de muitos anos e ele sabe esse negócio do Joel, tanto aqui como no Cincão (Zona Norte). Trabalho na política há 20 anos. O câncer de Londrina é a compra de votos. Não vai pensar que esses eleitos também não compraram: 80% daquele pessoal da Câmara comprou.
Da Câmara atual, mais gente comprou?
Uns 20% dali não compraram. Aqui são mil e poucos votos; vieram 400 políticos comprar voto aqui.
O Joel deu dinheiro na sua mão?
Uma parte na minha mão, outra na dos outros que foram cabos também, em quantias quase iguais. Na minha mão, foram uns R$ 750, R$ 800, um dia antes da eleição.
O senhor tem consciência de que pode ter ajudado um político a cometer um crime?
Fico constrangido, porque quando a gente cresceu o Joel Garcia aqui, o cara começou a nos ajudar pra retirar do distrito uma fábrica de baterias que estava se instalando aqui, a GNB. Ele nos ajudou com segundas intenções, em 2008.
Isso em reuniões?
Toda semana ele vinha aqui. Mas poucos dias antes da eleição, veio e disse: 'Vocês levam essas listas, cada um preenche nome, título, e daí vocês falam que vão trabalhar de fiscais' - e nós pegamos a folha, que era do partido.
Quanto o senhor recebeu?
Foi de graça, porque minha filha seria assessora de gabinete dele. Mas em janeiro ele bateu a porta na minha cara e disse que não tinha compromisso com ninguém. Me senti muito traído, pois trabalhei com meu carro na pedra, na chuva. Minha filha trabalhou igual uma doida pedindo voto pra ele. Mas não entregamos ele (ao Gaeco). Os policias e os promotores chegaram na minha casa - o advogado do Joel já tinha vindo antes, no mesmo dia, tentando amenizar as coisas, mas não deu tempo -, e acharam a lista e o recibo debaixo do colchão, no meio de dois colchões.

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