PORRRRTA E LEITE QUENTE - Etnias variadas, sotaques mais ainda
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terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Qual é a maneira correta de falar: pestana ou sobrancelha? Urupê ou cogumelo? Mandioca ou aipim? Engana-se quem optou por apenas uma das alternativas, pois nenhuma delas está errada. Todas são utilizadas em algum lugar do Paraná devido à variação regional. Para se ter uma idéia, em razão das diferenças lingüísticas, na região sudoeste do Estado, calcanhar é garrão e terneiro significa bezerro.
A língua portuguesa varia também de acordo com o tempo, o nível cultural, a faixa etária e o gênero. A professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pós-doutora em Lingüística, Vanderci de Andrade Aguilera, autora do Atlas do Paraná e uma das idealizadoras do Atlas do Brasil, que será lançado ano que vem, explica os motivos das variações regionais e afirma que a escola não sabe trabalhar com a diversidade. De acordo com Vanderci, não existe o certo e o errado.
Como está sendo feito o Atlas do Brasil?
Essa idéia já vem sendo alimentada desde há 12 anos. O Atlas do Brasil está sendo desenvolvido pela Universidade da Bahia, que é a sede, e pelas universidades do Pará, de Juiz de Fora, do Rio Grande do Sul, de Londrina, do Rio de Janeiro e do Mato Grosso do Sul. Estabelecemos para todo o país 250 localidades, sendo 25 capitais. Em 2001 começamos a fazer a pesquisa de campo. Nas capitais já fizemos todo o levantamento, mas no interior temos 60% pronto. O resultado das capitais vai ser publicado no ano que vem.
Na sua opinião, qual a importância de conhecer as variações lingüísticas?
É uma questão de cidadania e de orgulho. É importante para a educação e para o conhecimento da língua. O professor deve saber que a língua varia no tempo, no espaço e nas camadas sociais. Atualmente, o docente tem a teoria. Ele sabe que existe a variação e que é preciso respeitar o dialeto do aluno. Sabe também que é necessário mostrar ao estudante que existem lugares adequados para usar a forma erudita e a popular. Mas, diante da diferença, o professor só quer saber da forma de prestígio. Não existe o certo e o errado. Têm-se as variantes que podem e não ser usadas em determinados lugares. Por exemplo, na minha casa eu não me preocupo em utilizar o plural, mas diante dos meus alunos não posso deixar de fazer as concordâncias.
Então a senhora acha que os professores de português estão mal preparados?
Teoricamente eles estão preparados. Porém, na prática não sabem lidar com a variação lingüística. A sociedade e a escola valorizam somente o dialeto padrão, não dando o mesmo valor à variante trazida pelo aluno de casa. A escola, muitas vezes, não sabe trabalhar com a diversidade. É preciso considerar o dialeto trazido pelo aluno, mostrando-o que a língua deve ser usada de acordo com o contexto.
E sua pesquisa sobre o Paraná, como foi realizada?
O Atlas Lingüístico do Paraná apresenta dados coletados em 65 municípios paranaenses. Foi aplicado um questionário com 325 perguntas nos 130 informantes selecionados. Cartografei a oposição norte e sul: ponti e ponte, novu e novo. Também verifiquei onde se puxa mais o r para falar e conclui que esta é uma característica do paranaense. Posso afirmar que é de ponta a ponta. Demorei cinco anos para concluir o Atlas. É uma pesquisa demorada e cara. Dificilmente temos apoio público.
Quais as variações mais inusitadas no Estado do Paraná?
É interessante a oposição entre o norte e o sul. Por exemplo, no norte fala-se urubu, camomila e carreador, enquanto no sul diz-se corvo, maçanilha e carreiro. Há essa oposição também no nível do léxico. No norte fala-se córrego e no sul tem-se a sanga e o arroio.
E quais as razões para tantas variações lingüísticas?
Elas são decorrentes das ocupações e do prestígio. Por exemplo, nós falamos urubu, pois é uma palavra do tupi trazida por mineiros e paulistas. No sul fala-se corvo porque o imigrante alemão e o polonês trouxe a idéia de pássaro preto como corvo.


