Por que eles querem o poder?
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sábado, 30 de setembro de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Depois de dois meses de campanha eleitoral, hoje é o dia do brasileiros irem às urnas para escolher a quem darão o poder de decidir os rumos do país nos próximos quatro anos e de escrever novos trechos da história tupiniquim. Dito assim, de maneira direta, talvez impressione alguns eleitores menos comprometidos com o processo democrático, mas, para especialistas, isto é o que está em jogo neste momento, até porque, como explicam, ''a política é a arte do poder''.
''A questão é pensarmos não somente em quem disputa o poder neste momento eleitoral, mas qual grupo dominante ele está representando'', alerta o sociólogo e professor aposentado da Universidade Estadual de Londrina, Nelson Tomazi. Ele argumenta que, ao cargo de presidente do Brasil, é dado um poder grande, e, por isso, os interesses de manter ou colocar um representante na liderança do poder Executivo é também grandiosa e imperativa.
A socióloga, professora e autora do livro ''O voto da probreza e a pobreza do voto - a ética da malandragem'', Maria Lúcia Victor Barbosa, orienta que a disputa pelo poder acontece em todas as relações humanas - patrão e empregado, médico e paciente, pai e filho -, porém os poderes político e econômico são mais ambiciosos.
''Isto acontece porque o poder político, em específico, confere à pessoa um tipo de vida que não é comum aos mortais. Dá uma sensação de quase plenitude, de endeusamento'', explica. Ela analisa que, no caso do presidente da República brasileira, a vida é quase de um membro da corte real. São viagens, jantares, roupas e jóias que seduzem.
O problema, segundo a socióloga, é que essa sedução deturpa o sentido primeiro da política, que é o do bem coletivo. ''Até hoje, nunca tivemos um projeto comum de nação. As decisões políticas são individualistas'', defende, acrescentando que este egoísmo não se resume aos políticos. Ela explica que os eleitores também têm interesses: ''Os pobres votam com a emoção e pedem o que precisam urgentemente e os ricos pedem cargos e licitações, ou seja votam com o bolso. Sobra para a classe média, que é moralista, porém alienada''.
O professor Tomazi destaca os acordos políticos feitos para se conseguir o poder. ''O Lula, por exemplo, tinha um discurso antes da eleição, que mobilizava a população, mas ele precisou dos acordos com as classes hegemônicas - veja quem foi o ministro da Agricultura e o presidente do Banco Central - para se eleger. O Fernando Henrique não precisou disso, porque ele era o representante efetivo da classe dominante'', analisa.
O sociólogo também chama a atenção para o ilusório poder do Legislativo no Brasil. Ele afirma que o Congresso Nacional não funciona e que está sempre à reboque do Executivo. ''E isso não é de agora, acontece desde a 1 Constituição brasileira. Assim, ninguém acredita em deputado'', assegura.
Diante desta realidade, Maria Lúcia Barbosa diz que é preciso que a população ''controle o poder que a controla'' e lembre que política não é feita somente durante a campanha eleitoral. ''Todos escolhemos o candidato com a emoção, isso é do ser humano, entretanto é preciso superar isto e avaliar a quem estaremos dando o nosso poder de decidir sobre o país'', orienta.
Nelson Tomazi sugere que o cidadão considere que há coisas que não serão resolvidas pelo voto, mas por ações pontuais, que cada um pode desenvolver. ''É preciso que a população se envolva com o ambiente onde vive, e pense: eu preciso fazer alguma coisa por este local.''


