A sessão de votação do relatório da Comissão Processante instaurada contra o vereador Rodrigo Gouvêa (sem partido), que podia culminar com a cassação do edil, seguiu em clima morno durante toda a manhã de ontem, na Câmara de Londrina, com a leitura de mais de 80 páginas do processo, até o momento reservado para que Gouvêa ou seu procurador, o advogado Guilherme Gonçalves, utilizasse um tempo de 60 minutos para a defesa oral.
Foi à tribuna Gonçalves, que falou em tom inflamado e chegou a derramar lágrimas por três vezes. O discurso dele pode ser resumido como um alerta aos demais vereadores de que num futuro próximo qualquer um poderia estar na posição de réu ocupada por seu cliente. Além de Gouvêa, outros cinco vereadores são investigados pelo Ministério Público (MP) ou já estão na condição de processados na Justiça e devem ser os próximos a enfrentarem uma comissão processante na Câmara.
''Conheço um ditado que diz: 'pau que bate em Chico bate em Francisco'. O Chico de hoje é o Rodrigo, o Francisco de amanhã pode ser qualquer um de vocês. Por isso, peço que o relatório seja aprovado'', conclamou o advogado aos vereadores, referindo-se ao relatório assinado por Sandra Graça (PP) e Tito Valle (PMDB), que inocentava Gouvêa.
A meta da defesa foi alcançada. Por nove votos a oito, o relatório foi aprovado e o vereador absolvido.
Antes mesmo do discurso do advogado, a defesa já levava vantagem nas preliminares. Enquanto foram lidas apenas seis páginas apresentando as acussações, elaboradas pelo corregedor da Câmara, Rony Alves (PTB), outras 76 páginas, do relatório da comissão processante e do relatório de defesa, consumiram horas da sessão. Impedido de votar por ser o autor formal das acusações, o corregedor foi substituído pelo quinto suplente - dos outros quatro, dois declinaram e dois já morreram - da coligação PTB/PSC nas eleições de 2008, Ademir Zacarias da Silva, que teve 1.103 votos. Silva votou pela aprovação do relatório.
Nos primeiros minutos da sessão, aconteceu outro fato que pode ser considerado favorável a Rodrigo Gouvêa. Um oficial de justiça foi à Câmara entregar ao presidente, José Roque Neto, uma ''recomendação'' do juiz da 6 Vara Cível, Abelar Baptista Pereira Filho, que ''deferiu parcialmente'' um pedido de liminar impetrado pelo advogado José Henrique Ferreira Gomes, o qual reivindicava a suspeição de Sandra Graça, Tito Valle e Paulo Arildo e a consequente substituição dos três na sessão. O juiz determinou apenas que antes do voto o presidente devia ''adverti-los de que, votando, podem vir a permitir arguições individuais de vício do procedimento e por isso se responsabilizar...''. Em outras palavras, o magistrado deixou a cargo dos vereadores votar ou não.
Contra Sandra, há ação tramitando na 5 Vara Cível, por improbidade administrativa, na qual ela é acusada de ter mantido ''funcionário fantasma'' em seu gabinete; mesmo motivo pelo qual Gouvêa estava sendo julgado. Arildo responde a ação na 10 Vara Cível, por apropriação de salários de assessores. Tito Valle é investigado pelo MP pelo mesmo motivo.
Sandra e Tito, mantendo o que já haviam manifestado no relatório do qual foram presidente e relator, respectivamente, votaram e absolveram Gouvêa. Paulo Arildo, no momento de começar a votação, declarou-se ''impedido'' e deixou o plenário.
Para cassar Gouvêa, seria necessária a maioria simples dos votos. De acordo com a assessoria de imprensa da Câmara, um eventual empate (9 a 9), já que dezoito vereadores estavam aptos a votar antes da retirada de Arildo, beneficiaria o vereador. Quando o painel eletrônico mostrou a vitória, Gouvêa deixou rapidamente a Câmara, dizendo poucas palavras aos jornalistas. ''Essa casa fez justiça. Começou a moralização.''
Em 2009, entre outubro e novembro, Rodrigo Gouvêa chegou a ficar 23 dias preso no Centro de Detenção e Ressocialização de Londrina para não atrapalhar a investigação processual sobre a suposta funcionária fantasma. Ele também chegou a ser afastado da Câmara, duas vezes, por suspeita de pedir propina para votar um projeto.


CP GOUVÊA

Confira como votaram os vereadores:

ve­rea­do­res que vo­ta­ram pe­la apro­va­ção do re­la­tó­rio que ino­cen­tou Gou­vêa

Ade­mir Za­ca­rias da Sil­va (PSC)
­Jacks ­Dias (PT)
Jai­ro Ta­mu­ra (PSB)
­Joel Gar­cia (PDT)
Mar­ce­lo Be­li­na­ti (PP)
Pas­tor Re­na­to Le­mes (PRB)
Ro­ber­to da Far­má­cia (PTC)
San­dra Gra­ça (PP)
Ti­to Val­le (­PMDB)
To­tal - 9

Ve­rea­do­res que re­jei­ta­ram o re­la­tó­rio

­Eloir Va­len­ça (PT)
Ger­son Araú­jo (­PSDB)
Ivo de Bas­si (PTN)
Jo­sé Ro­que Ne­to (PTB)
Le­nir de As­sis (PT)
Ro­ber­to Fú (PDT)
Ro­ber­to Ka­nas­hi­ro (­PSDB)
Se­bas­tião dos Me­ta­lúr­gi­cos (PDT)
* Paulo Arildo (PSDB) se absteve.
To­tal - 8

mockup