Os reflexos nas urnas dos sucessivos escândalos de corrupção que dominaram os noticiários nacionais nos últimos meses, somente serão conhecidos após as eleições. Paralelamente, os transtornos criados por esquemas de desvio de recursos dos cofres públicos são sentidos pela população - principalmente a mais carente - diariamente.
Campanhas publicitárias - inclusive a lançada recentemente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - salientam a importância do voto no combate à corrupção. Mas o que poucos ainda exercem é o direito e o dever de denunciar irregularidades nas administrações públicas e no processo eleitoral.
Segundo o coordenador do Ministério Público (MP) em Londrina, Cláudio Esteves, que atua na Promotoria de Investigações Criminais (PIC), o número de denúncias de irregularidades feitas pela população é ''muito pequeno''. ''O que se observa é que normalmente acontece ou da imprensa levantar uma determinada situação ou uma pessoa envolvida procurar a autoridade para reclamar, a vítima ou uma pessoa que esteja envolvida praticando crime e queira se desvencilhar. Há uma parcela menor cujas investigações são iniciadas por uma notícia trazida por um popular que não tenha relação alguma com o fato, mas é uma parcela bem pequena.''
Na avaliação do promotor, é preciso que cada cidadão tenha consciência de que uma ''melhoria na sociedade'' também passa por uma mudança no comportamento das pessoas. ''O que percebo é uma atitude ainda muito tímida das pessoas que acabam deixando de levar os fatos às autoridades, com receio de represálias, mas essas mesmas pessoas reclamam uma melhoria na nossa sociedade, que as autoridades tomem providências, que o Brasil seja melhor. Todos nós temos uma responsabilidade, não é simplesmente deixar a cargo das autoridades a solução dos problemas'', salientou. ''Acho que temos uma união de esforços que precisa ser implementada. É a sociedade participando em todos os níveis para combater a corrupção, a imprensa dando a cobertura devida, tornando transparentes os fatos e a Justiça como um todo, dando a resposta necessária. Esse tripé precisa ainda ser aprimorado em todos os setores, mas notadamanete a população ainda não viu a sua força. No momento em que ela resolver atuar, resolver colaborar, as coisas certamente terão uma mudança.''
Para Esteves, a participação da população no combate à corrupção é um exercício de cidadania. ''O voto é o momento máximo de participação de cada cidadão. Durante esse processo eleitoral, cada um pode exercer essa cidadania de maneira mais efetiva contribuindo para evitar especialmente a corrupção eleitoral.''
Esteves ainda citou um caso ocorrido nas eleições de 2002, em que uma denúncia gerou a punição dos responsáveis por compra de votos. ''Uma pessoa de um bairro comunicou através de uma emissora de rádio, que estaria havendo compra de votos. Imediatamente a polícia foi acionada e conseguiu prender uma pessoa que estava realmente negociando votos em favor de um determinado candidato. Foi um cidadão que nada tinha a ver com os fatos que acabou comunicando e isso gerou efetivamente a prisão, o processo e a condenação das pessoas'', relatou.

mockup