Curitiba - Há poucas semanas, o deputado federal Florisvaldo Fier, o Doutor Rosinha (PT-PR), recebeu uma carta curiosa de um morador do Ceará. ''Eu tenho sofrido de muita solidão e de tristeza. Peço a doação de revistas tipo Playboy, VIP ou Sexy (...), ou de um rádio-gravador, uma TV de qualquer tamanho ou um vídeo-cassete usado'', dizia um trecho da carta.
O fato fez com que o deputado refletisse sobre a percepção que boa parte da sociedade tem dos políticos. ''Já me pediram de tudo. Uma vez, um cidadão pediu para que eu fosse padrinho das filhas gêmeas dele. Eu disse que não poderia e aí então ele perguntou se não tinha como eu dar um botijão de gás. Ou seja, qualquer coisa estava valendo'', afirma ele. ''O que eu concluo é que muitas pessoas pensam que vereador, deputado, serve para dar coisas e pagar contas. Não sabem qual é a real função dos ocupantes de cargos eletivos''.
Com uma rápida enquete nas ruas de alguma grande cidade (veja texto nesta página), fica fácil constatar que muita gente realmente desconhece as atribuições de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e do presidente. Ricardo Costa de Oliveira, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que este desconhecimento é decorrente de três fatores principais: falta de educação formal de grande parcela da população, o clientelismo praticado por alguns políticos e a falta de interesse pela política.
''O cidadão sem boa formação escolar não consegue ter uma percepção dos fenômenos políticos, uma visão complexa dos fatos. E essa carência de escolaridade é culpa justamente do Estado. O clientelismo ou assistencialismo, por sua vez, faz com que as pessoas tenham uma visão distorcida da função dos integrantes do Poder Legislativo. Remédios, cadeira de rodas, essas coisas o cidadão carente tem quem conseguir em locais mantidos pelo Executivo, e não no gabinete de um vereador ou de um deputado. Quanto à falta de interesse, a apatia política de parte da população é comum nas democracias. Existe aquela coisa do 'promete e não cumpre', da demagogia. Isso pode frustrar o eleitorado'', explica Oliveira.
Políticos entrevistados pela Folha foram unânimes em apontar o assistencialismo como o responsável pela percepção errada que muitos cidadãos têm dos políticos. ''Acho que, graças ao rigor na fiscalização das leis eleitorais, o assistencialismo é bem menos comum no Paraná do que era há 20 anos. Mas ainda existem os 'clientes' de carteirinha, gente acostumada a pedir. Esses são notórios na vida pública'', comenta o deputado estadual Durval Amaral (PFL).
Ele aponta que os pedidos mais comuns são dinheiro, cesta básica e remédios. ''Já me pediram desde vestido de noiva até mobilete. Ainda persiste a visão equivocada de que a função do parlamentar é prestar favores. O legislador não deve dar o que lhe é pedido, mas sim apontar o atendimento adequado. Hoje, temos várias entidades assistenciais, conselhos comunitários, órgãos que prestam serviços sociais nas prefeituras. É dever de ofício do parlamentar fazer esse encaminhamento'', diz o deputado.

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