Houve um tempo em que políticos de Rondônia e do Acre costumavam ser caçados à bala pelos adversários. O então senador Olavo Pires, de Rondônia, tombou no meio da rua em 1990 depois de receber mais de 15 tiros de metralhadora; o governador do Acre, Edmundo Pinto, foi encontrado morto em 1992 em um hotel de São Paulo. Os dois crimes nunca foram esclarecidos.
A violência selvagem deu hoje lugar a um novo tipo de intimidação. O inimigo político não é mais simplesmente eliminado - é desmoralizado por gravações de conversas comprometedoras. Nos últimos seis meses, o tempo de alguns políticos de Rondônia e do Acre foi gasto mais no trabalho de espionagem, grampo telefônico ou gravações clandestinas do que no desempenho da atividade parlamentar para a qual foram eleitos. Eles se tornaram especialistas na arte da futrica.
O diretor do Departamento de Trânsito (Detran) de Rondônia, ex-deputado Maurício Calixto, é o exemplo perfeito da paranóia que tomou conta dos políticos desta região ocidental da Amazônia brasileira. Ao receber o telefonema do repórter da Agência Estado, ele indagou se havia um segundo aparelho por perto. ‘‘Todo o cuidado é pouco’’, disse Calixto, já no outro telefone. ‘‘Deste aparelho aqui é mais difícil o trabalho dos arapongas’’.
A gravação de tudo o que os políticos falam é defendida pelo ex-deputado Narciso Mendes, do Acre, principal suspeito de ter grampeado as conversas dos ex-deputados Ronivon Santiago e João Maia, do Acre. Ronivon e Maia confessaram, ao ‘‘araponga’’, que tinham recebido R$ 200 mil para votarem a favor da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. O dinheiro teria sido pago pelos governadores do Acre, Orleir Cameli (PFL), e do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL). O episódio, como os assassinatos de Olavo Pires e Edmundo Pinto, também não foi esclarecido.
Ronivon e Maia renunciaram ao mandato logo depois de perceber que, mesmo com todo o corporativismo do Congresso, não escapariam da cassação. Eram réus confessos. Deixaram para trás os mandatos, mas as denúncias atingiram ainda outros três deputados: Chicão Brígido (PMDB-AC), Osmir Lima (PFL-AC) e Zila Bezerra (PFL-AC), que também teriam recebido dinheiro para votar a favor da reeleição. Houve o processo contra os três, na Comissão de Constituição e Justiça. Por falta de provas foram absolvidos.
Foi durante o processo contra Chicão Brígido que se descobriu novo episódio de espionagem. Ao negociar o aluguel do mandato com a suplente Adelaide Neri (PMDB-AC), Chicão gravou toda a conversa. Ficou registrado, por exemplo, que Adelaide se comprometia a devolver a Chicão todos os salários extras.

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