Políticos querem atrair brasiguaios
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sábado, 14 de março de 1998
Mônica Yanakiew Agência Estado 
Arquivo Folha/ABC ColorEm campanhaOviedo: candidato promete abrir linhas de créditos para os agricultores, segundo Álcio, seu primo brasileiro A delicada situação política paraguaia não preocupa apenas a diplomacia e os empresários brasileiros - empenhados em manter a estabilidade para os negócios do Mercosul e a segurança da hidrelétrica de Itaipu, compartilhada pelos dois países. Num ano de eleições, tanto no Paraguai como no Brasil, prevalecem também interesses políticos regionais, que têm levado candidatos de um país a falar aos eleitores do outro.
Na fronteira entre os dois países está armado um palanque binacional, de olho na população de 200 mil a 400 mil brasiguaios - como são chamados os brasileiros vivendo no Paraguai, muitos deles sem documentos. Legalizar os brasiguaios e a posse das terras que compraram, mas correm o risco de perder por falta de documentação, é justamente uma das promessas feitas pelo general da reserva Lino Oviedo - o polêmico candidato à vaga do presidente do país vizinho, Juan Carlos Wasmosy.
Oviedo encabeça as pesquisas de opinião, mas está impedido de fazer campanha. Acusado de tramar um golpe de estado em abril de 1996, contra Wasmosy, ele foi condenado a dez anos de prisão na segunda-feira passada, mas promete se empenhar numa verdadeira batalha judicial. Oviedo não é apenas o campeão das pesquisas em seu país. Também é o favorito dos políticos brasileiros da fronteira, no Paraná e Mato Grosso do Sul.
Sei que em seu programa de governo Oviedo tinha previsto dar documentos aos cerca de 350 mil brasiguaios e acabar com o clima de incerteza no qual vivem, correndo o risco de serem expulsos de terras que compraram, porque não têm documentos ou de serem invadidos por posseiros, disse Álcio de Oliveira, um primo brasileiro de Oviedo, com escritório em Brasília e fazendas no Mato Grosso. Se eleito presidente, ele abrirá linhas de crédito para os agricultores paraguaios, que hoje são inexistentes, não permitirá os abusos que os sem-terra praticam aqui, ocupando áreas cultivadas em vez de trabalhar enormes regiões desocupadas, acrescentou.
No Brasil, Oviedo conta com a simpatia de dois ex-ministros - o deputado Affonso Camargo (PFL) e o senador José Eduardo Andrade Vieira (PTB), ambos do Paraná - além de boa parte das bancadas paranaenses no Congresso. Sei que Oviedo é um homem que respeita seus compromissos e, ao que tudo indica, tem a maioria dos votos em seu país, diz o senador Roberto Requião (PMDB-PR), que dias antes da convenção do seu partido viajou ao Paraguai para pescar e aproveitou para falar com a mulher do candidato preso, que está fazendo campanha pelo marido.
Muito político brasileiro de fronteira faz campanha no Paraguai, diz Requião. Mas o futuro paraguaio não é apenas preocupação dos candidatos paranaenses, como os deputados Werner Wanderer (PFL) e Padre Roque (PT), que há alguns meses cruzou a fronteira para investigar a prostituição de menores brasileiras e recomprou, num prostíbulo, uma menina de 14 anos.
Também há paraguaios que votam no Brasil. O senador Levy Dias (PPB-MS) fez recentemente um discurso no Congresso, chamando a atenção para a gravidade da crise política no país vizinho e a necessidade de se encontrar uma saída democrática. Fui prefeito de Campo Grande duas vezes e sei que existem dez mil famílias paraguaias vivendo lá, que estão muito preocupadas com a continuidade democrática de seu país de origem, disse. Além do mais, 15 municípios de meu Estado fazem divisa com o Paraguai e são separados apenas por uma rua, acrescentou.
A instabilidade política tem afetado a vida dos brasileiros do outro lado da fronteira. O cônsul do Brasil em Ciudad del Este, embaixador Ernesto Ferreira de Carvalho, lembra que em janeiro de 1995 o Itamaraty montou com o governo paraguaio uma operação conjunta para documentar os brasileiros no Paraguai. Um consulado itinerante (uma van que transportava as autoridades, os papéis e os carimbos necessários para emitir documentos) percorreu as regiões mais povoadas pelos brasiguaios, para registrá-los. Mas, por razões que desconheço, esse trabalho não teve o prosseguimento esperado, lamenta Carvalho.
Segundo o cônsul, alguns brasileiros receberam seus documentos das autoridades do Paraguai. Mas outros, mesmo tendo pagado as taxas necessárias, nunca tiveram retorno. Numa reunião, entre representantes dos dois governos, os paraguaios sugeriram fazer novamente o mesmo procedimento. Não aceitamos, porque como iríamos pedir a alguém que pagou por algo e não recebeu, que pagasse novamente?, perguntou Carvalho. A pessoa diria, com razão, que é roubo.
O problema, segundo Carvalho, agravou-se agora, porque todas as atenções estão concentradas na crise política e, até definir quem será o próximo presidente do Paraguai, o Brasil está sem interlocutores para resolver essa pendência. Estamos num momento em que tudo pode ser politizado, diz o cônsul, ao lembrar que como a política de um país influencia a do vizinho. Existem prefeitos de municípios paraguaios (como Santa Rita) que são brasileiros; eleitores que votam dos dois lados da fronteira; e até ações conjuntas dos sem-terra.


