Brasília - Policiais que trabalharam na investigação sobre a evasão de US$ 30 bilhões para o exterior confirmaram ontem, na Câmara dos Deputados, o envolvimento de políticos e empresários no envio de dinheiro ilegalmente para bancos estrangeiros. O depoimento aconteceu na Comissão de Segurança, onde o delegado federal Antônio Carlos Carvalho afirmou que a saída de recursos do País aconteceu após a edição de uma portaria do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, exclusivamente para cinco agências bancárias de Foz do Iguaçu.
A sessão da comissão foi realizada em clima tenso e trouxe à tona uma rivalidade existente entre dois grupos da Polícia Federal, que tiveram atuação no caso. De um lado, o delegado José Francisco Castilho Neto e o perito Renato Rodrigues Barbosa, e de outro Carvalho e o também perito Eurico Monteiro Montenegro, que chegaram a trabalhar em conjunto, mas se dispersaram após a ida da equipe para Nova York, onde foram descobertas 137 contas irregulares em bancos estrangeiros.
A primeira divergência foi em relação aos números, já que Montenegro afirma que até agora existem apenas a confirmação do desvio de US$ 14,9 bilhões, enquanto que seu colega mantém a avaliação feita por Castilho, que é de US$ 30 bilhões. O delegado também é acusado por Carvalho de ter conseguido documentos nos Estados Unidos e ter repassado ao procurador da República no Distrito Federal, Luiz Francisco de Souza, quando o certo seria ter anexado ao inquérito que foi aberto em Foz do Iguaçu. Castilho, por sua vez, afirmou que tomou a decisão pelo fato de não ter sido recebido pelo diretor-geral da PF, Paulo Lacerda.
Além da divergência em valores, os policiais tentaram desqualificar uns aos outros, como no momento em que Castilho afirmou haver uma conta no exterior ''com o sugestivo nome de uma ave da fauna brasileira'', numa referência ao tucano, onde foram depositados US$ 240 milhões. ''Nomes sugestivos e totais expressivos'', completou o perito Barbosa. ''A ave de nome sugestivo é de um doleiro de Campinas, administrada por uma empresa do Panamá'', rebateu Montenegro, descartando ligação com o PSDB, cujo símbolo é um tucano.
Se a sessão aberta serviu mais como lavagem de roupa suja pública da PF, como exemplificou o deputado Edmar Moreira (PPB-MG), a parte secreta foi proveitosa. Os deputados souberam quem são os políticos e empresários supostamente envolvidos no envio irregular de recursos para o exterior. O perito Montenegro confirmou dois nomes, sem revelá-los, mas Castilho e Barbosa mostraram outros suspeitos.
Na próxima semana, os policiais darão novos depoimentos secretos e entregarão os documentos relacionados aos políticos. Além de Castilho e Barbosa, irão depor dois procuradores da República no Paraná e Luiz Francisco. ''Temos que ter cuidado, pois o problema é sério'', acrescentou o presidente da comissão, Moroni Torgan (PFL-CE).

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