Política causa guerra em Pitangueiras
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sábado, 19 de julho de 1997
Patrícia Zanin Pitangueiras 
Marcos Borges/Folha de LondrinaClaudete: ex-prefeito vingativoAs divergências políticas transformaram Pitangueiras num campo de guerra. A afirmação, da dona de casa Alzira Frigo Fernandes, 55 anos, pode até parecer exagerada. Mas faz sentido quando se compara o clima que reina na cidade - discórdia, conflito, hostilidade, intimidação - com a definição de guerra trazida por qualquer dicionário. O único item que destoa é a violência. As provocações ainda não passaram de ameaças. O confronto se acentuou depois das novas eleições, realizadas no dia 29 do mês passado.
O novo pleito definiu uma troca de prefeitos no município, localizado a 84 quilômetros ao norte de Londrina. Antônio Kolachinski (PSDB) venceu a disputa contra o atual prefeito, Odécio Ferrarini (PTB). Apesar de diplomado dois dias depois das eleições, Kolachinski não assumiu o cargo até agora. A posse foi marcada para o dia 4 de agosto, mas, semana passada, Ferrarini conseguiu liminar no Tribunal Superior Eleitoral anulando o novo pleito, até que seja julgado o mérito da ação. Enquanto a batalha jurídica não termina, a cidade convive com dois prefeitos, o que traz prejuízo e confusão à população.
Tanto desencontro acabou acirrando as disputas entre os 2.300 moradores do pequeno município, e a cidade está completamente dividida. As desavenças imperam até mesmo entre famílias. Amizades rompidas, laços desfeitos, caras viradas. Aqui é irmão contra irmão, pai contra filho, tio contra sobrinho, vizinho contra vizinho. Isso aqui virou mesmo uma guerra, desabafa o aposentado Manoel Moço da Silva, 70 anos, que está brigado com o irmão, Minervino. Ele virou a cara e não tá falando mais comigo, queixa-se Moço da Silva, eleitor de Ferrarini. Minervino vota em Kolachinski.
O lavrador José Sabec sente na carne a divisão que tomou conta da cidade. Ele é correligionário de Kolachinski, enquanto suas irmãs Lurdes e Aparecida são aliadas de Ferrarini. Brigar a gente não briga, mas dá receio de se encontrar, de conversar. É a eterna vigilância, reclama.
Marcos Borges/Folha de LondrinaManoel: briga com o irmão
A paixão e as diferenças políticas bateram nas portas até dos bares, lanchonetes e mercadinhos de Pitangueiras. Aqui é assim. Se eu sou amiga do Toninho (Antônio Kolachinski), o pessoal do Odécio (Ferrarini) me vê como inimiga. Claro que eu quero vender para todos, mas a maioria do pessoal dele não entra aqui, reclama Claudete Faria Marques, dona da lanchonete Bathellos.
O pessoal acha que aqui tem mais gente do lado do Odécio e por isso os do outro lado quase não frequentam, reconhece Pedro Rocha, dono da lanchonete Só prá contrariar. Se a política aqui não fosse tão dividida, a lanchonete estaria sempre cheia, acredita.
Pedro Rocha foi candidato a vereador da coligação de Ferrarini nas eleições do ano passado. Claudete Marques é irmã do vereador Carlos Marques (PV), aliado de Kolachinski. Claudete reclama que o irmão, dono do mercado San Carlos, é boicotado pela prefeitura por ter escolhido a oposição. A prefeitura compra tudo fora. Quer que o comércio daqui acabe, indigna-se. Ela acusa o ex-prefeito, Arquimedes Ziroldo (PDT), de ser vingativo. Ele incentiva o pessoal a comprar fora. A prefeitura parou de comprar até pão no mercado San Carlos.
O dono da única farmácia da cidade, Dorival Marcondes Alves, engrossa o coro dos contrariados com desprestígio da prefeitura ao comércio local. A prefeitura prefere comprar remédios em Astorga do que adquirir da gente, garante. Ele já foi aliado de Ziroldo, mas diz que o ex-prefeito rompeu com ele, sem maiores explicações.
O prefeito Odécio Ferrarini confirma o boicote, mas alega que, no caso da farmácia, a prefeitura não compra porque obtém medicamentos mais baratos comprando direto dos laboratórios. No caso do mercado San Carlos e do mercado São José, ele confirma as rixas com os proprietários. Eles foram uns traíras.
Na contramão das disputas e longe do poder está um grupo de mulheres do Apostolado da Oração, ligado à Igreja Católica. Elas se reúnem religiosamente todas as quintas-feiras para orar pelo bem do município. Depois de tanta briga, nossa oração tem que ser com mais fervor, diz a presidente do Apostolado, Josefina Januário Maria, 50 anos. O clima na cidade anda muito pesado, completa Tarsília de Jesus de Souza, 75. Enquanto tem gente que quer a guerra, a gente reza pela paz, afirma Madalena da Silva Guimarães, 42. Josefina, a presidente do Apostolado, só vê um remédio para a crise: Para acabar com isso, só Deus mesmo.


