Marcos Borges/Folha de LondrinaClaudete: ex-prefeito vingativo‘‘As divergências políticas transformaram Pitangueiras num campo de guerra.’ A afirmação, da dona de casa Alzira Frigo Fernandes, 55 anos, pode até parecer exagerada. Mas faz sentido quando se compara o clima que reina na cidade - discórdia, conflito, hostilidade, intimidação - com a definição de guerra trazida por qualquer dicionário. O único item que destoa é a violência. As provocações ainda não passaram de ameaças. O confronto se acentuou depois das novas eleições, realizadas no dia 29 do mês passado.
O novo pleito definiu uma troca de prefeitos no município, localizado a 84 quilômetros ao norte de Londrina. Antônio Kolachinski (PSDB) venceu a disputa contra o atual prefeito, Odécio Ferrarini (PTB). Apesar de diplomado dois dias depois das eleições, Kolachinski não assumiu o cargo até agora. A posse foi marcada para o dia 4 de agosto, mas, semana passada, Ferrarini conseguiu liminar no Tribunal Superior Eleitoral anulando o novo pleito, até que seja julgado o mérito da ação. Enquanto a batalha jurídica não termina, a cidade convive com dois prefeitos, o que traz prejuízo e confusão à população.
Tanto desencontro acabou acirrando as disputas entre os 2.300 moradores do pequeno município, e a cidade está completamente dividida. As desavenças imperam até mesmo entre famílias. Amizades rompidas, laços desfeitos, caras viradas. ‘‘Aqui é irmão contra irmão, pai contra filho, tio contra sobrinho, vizinho contra vizinho. Isso aqui virou mesmo uma guerra’’, desabafa o aposentado Manoel Moço da Silva, 70 anos, que está brigado com o irmão, Minervino. ‘‘Ele virou a cara e não tá falando mais comigo’’, queixa-se Moço da Silva, eleitor de Ferrarini. Minervino vota em Kolachinski.
O lavrador José Sabec sente na carne a divisão que tomou conta da cidade. Ele é correligionário de Kolachinski, enquanto suas irmãs Lurdes e Aparecida são aliadas de Ferrarini. ‘‘Brigar a gente não briga, mas dá receio de se encontrar, de conversar. É a eterna vigilância’’, reclama.
Marcos Borges/Folha de LondrinaManoel: briga com o irmão
A paixão e as diferenças políticas bateram nas portas até dos bares, lanchonetes e mercadinhos de Pitangueiras. ‘‘Aqui é assim. Se eu sou amiga do Toninho (Antônio Kolachinski), o pessoal do Odécio (Ferrarini) me vê como inimiga. Claro que eu quero vender para todos, mas a maioria do pessoal dele não entra aqui’’, reclama Claudete Faria Marques, dona da lanchonete Bathello’s.
‘‘O pessoal acha que aqui tem mais gente do lado do Odécio e por isso os do outro lado quase não frequentam’’, reconhece Pedro Rocha, dono da lanchonete ‘‘Só prá contrariar’’. ‘‘Se a política aqui não fosse tão dividida, a lanchonete estaria sempre cheia’’, acredita.
Pedro Rocha foi candidato a vereador da coligação de Ferrarini nas eleições do ano passado. Claudete Marques é irmã do vereador Carlos Marques (PV), aliado de Kolachinski. Claudete reclama que o irmão, dono do mercado San Carlos, é boicotado pela prefeitura por ter escolhido a oposição. ‘‘A prefeitura compra tudo fora. Quer que o comércio daqui acabe’’, indigna-se. Ela acusa o ex-prefeito, Arquimedes Ziroldo (PDT), de ser vingativo. ‘‘Ele incentiva o pessoal a comprar fora. A prefeitura parou de comprar até pão no mercado San Carlos’’.
O dono da única farmácia da cidade, Dorival Marcondes Alves, engrossa o coro dos contrariados com desprestígio da prefeitura ao comércio local. ‘‘A prefeitura prefere comprar remédios em Astorga do que adquirir da gente’’, garante. Ele já foi aliado de Ziroldo, mas diz que o ex-prefeito rompeu com ele, sem maiores explicações.
O prefeito Odécio Ferrarini confirma o boicote, mas alega que, no caso da farmácia, a prefeitura não compra porque obtém medicamentos mais baratos comprando direto dos laboratórios. No caso do mercado San Carlos e do mercado São José, ele confirma as rixas com os proprietários. ‘‘Eles foram uns traíras’’.
Na contramão das disputas e longe do poder está um grupo de mulheres do Apostolado da Oração, ligado à Igreja Católica. Elas se reúnem religiosamente todas as quintas-feiras para orar pelo bem do município. ‘‘Depois de tanta briga, nossa oração tem que ser com mais fervor’’, diz a presidente do Apostolado, Josefina Januário Maria, 50 anos. ‘‘O clima na cidade anda muito pesado’’, completa Tarsília de Jesus de Souza, 75. ‘‘Enquanto tem gente que quer a guerra, a gente reza pela paz’’, afirma Madalena da Silva Guimarães, 42. Josefina, a presidente do Apostolado, só vê um remédio para a crise: ‘‘Para acabar com isso, só Deus mesmo’’.

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