Policial corrupto vai para a cadeia
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terça-feira, 10 de setembro de 2002
Marcos Espíndola<br>Reportagem Local 
Aos 62 anos, o deputado federal Padre Roque Zimmermann (PT) tenta a eleição para o governo do Estado em uma verdadeira peregrinação pelo Estado. Peregrinação essa bem diferente daquela realizada há 10 anos, quando elegeu-se deputado federal pela primeira vez percorrendo todos os municípios em um Volkswagen Voyage. Agora, o candidato percorre o Paraná em boa parte de avião. E é com a mesma obstinação de dez anos atrás, que o religioso com 38 anos de sacerdócio e professor licenciado da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) pretende chegar ao Palácio do Iguaçu com a promessa de reformas. Padre Roque Zimmermann é o segundo candidato ouvido pela Folha na série de entrevistas com os principais postulantes ao governo do Estado.
Folha - A segurança é uma das maiores preocupações da população paranaense. De concreto o que o senhor pretende fazer nesta área?
Padre Roque Zimmermann - A primeira coisa é atacar as causas geradoras da insegurança, que a meu ver são quatro. Em primeiro lugar a marginalização de parcela crescente da população, que está desesperada, sem chances de vida e sem perspectiva nenhuma de futuro. A segunda é combater sem quartel e sem fronteiras o crime organizado. O crime organizado é o grande gerador da insegurança nesse estado e no país e se não atacarmos o crime organizado, não adianta outra coisa, é enxugar o gelo. Eu tenho a nítida impressão que nós todos sabemos onde ele está encastelado. Ele não está na periferia da cidade. Tem ramificações sim nas periferias, onde encontra seus operários, mas ele está encastelado em grupos econômicos, dos governos e também na banca. O terceiro fato gerador da insegurança é o sistema penitenciário, que está perdido. Já o quarto fator gerador da insegurança é o conúrbio que existe entre as forças de segurança pública e o crime organizado. Hoje nós sabemos que setores da polícia não são só apenas participantes, como comandam o crime. Então você separando o joio do trigo, você pode punir os policiais envolvidos com o crime organizado e valorizar aqueles que efetivamente prestam a segurança no Estado. Temos também que dar melhores salários para os policiais da base, melhores condições de vida e de trabalho. Outra medida necessária é a unificação do comando. A própria PF (Polícia Federal) terá que ser, de alguma forma, integrada à Secretaria de Segurança Pública do Estado, principalmente nos setores de inteligência das polícias.
Folha - Uma das causas do problema da segurança parece ser a corrupção na polícia, além da influência de forças políticas, como o senhor pretende resolver isso?
Zimmermann - Em primeiro lugar, nenhum deputado vai mais nomear delegado de polícia. Porque toda a corrupção começa aí. Policiais coniventes e corruptos são nomeados para ocuparem funções importantes. No meu governo a corporação indicará, por mérito e por ascenção funcional e o governador nomeia e cobra.
Folha - Nos últimos governos têm sido quase que rotina o policial ou principalmente o delegado ser acusado de alguma irregularidade na polícia, chegando-se em muitos casos a provas conclusivas, e simplesmente serem promovidos. Um governo do PT terá força para quebrar isso?
Zimmermann - Com certeza. Isso não vai acontecer. Policial que for apanhado com a boca na botija, com a mão na cumbuca, vai para a cadeia. O governo do PT não será conivente, vai premiar o bom policial e punir o mau policial e não importa qual o cargo que ocupe.
Folha - Outra questão em pauta é o salário do funcionalismo público estadual que não vê reajuste salarial há 8 anos. Como será sua política para o setor?
Zimmermann - Quando não havia a Lei de Responsabilidade Fiscal a desculpa esfarrapada era de que não havia dinheiro. Agora é porque com a Lei de Responsabilidade Fiscal não se pode aumentar. O governo do Rio Grande do Sul está dando a recomposição da inflação permanente, em todos os meses praticamente. É uma questão de vontade política, quando você começa a acabar com a corrupção, a enxugar os cargos de confiança, que só no Paraná são quase 4,5 mil. Ora gente, nós achamos que com menos da metade disso o Estado começará a funcionar, a burocracia diminuirá e as coisas vão acontecer. Não vou dizer em qual percentual vou aumentar o salário do funcionalismo, mas uma coisa eu garanto, no fim do meu primeiro ano de mandato o funcionário público ganhará aumento e, aos poucos, nós haveremos de recompor o salário do funcionário.
Folha - O candidato pretende dar prosseguimento a essa política industrial adotada pelo atual governo?
Zimmermann - A essa política não. Mas há uma política de industrialização no Paraná que vamos não só dar continuidade, como vamos incentivá-la e incrementá-la de todas as formas possíveis. E começar não apenas a incrementar a industrialização na região de Curitiba mas trazê-la para os outros pólos. Eu quero fazer um desafio a mim mesmo, depois de quatro anos nenhum município ficará sem algum tipo de indústria. Isto dinamizará o Estado inteiro. Não é uma promessa, mas um desafio que assumo hoje. Uma indústria puxa a outra e é claro que vou procurar a vocação endógena de cada localidade. Vou tirar o que é possível fazer em cada localidade. A idéia é começar de dentro para fora. Este será o modelo que vamos incentivar, do pequeno para crescer e se tornar grande. Eu quero uma indústria assim. Nós queremos oferecer para as indústrias de fundo de quintal uma verdadeira logística, como espaço físico, se for possível, para que possam se instalar em incubadoras. Segundo, garantir orientação administrativa, gerencial, contábil e jurídica em parceria com os municípios. E o Estado vai isentar por um ou dois ou três anos de todos os impostos estaduais as indústrias que empreguem, digamos, acima de três a quatro pessoas.
Folha - A sua proposta é justamente contrária ao que vinha sendo feito até agora, com a atração de grandes indústrias de fora, com incentivos astronômicos. Agora começa a aparecer inclusive, não só a degradação ambiental, mas social também daquela região devido a falta de planejamento na vinda destas empresas. É um fardo que o próximo governo terá. Como resolver isso de imediato?
Zimmermann - É um problema extremamente difícil. Nós recebemos dia desses a visita de um grupo alemão de planejadores ligados a uma Organização Não-Governamental (Ong) que veio ver a situação das nascentes do Iguaçú. Eles estiveram em Porto Alegre (RS) e estão fazendo lá um estudo para a implantação de um grande parque industrial para pequenas e médias indústrias, no local onde era para ser instalada a Ford. Eles fizeram uma coleta na nascente do Iguaçú, perto da ponte da (BR) 116, e outra aqui nas Cataratas do Iguaçú. Sabe o que eles constataram? Que os mesmos poluentes encontrados na nascente foram encontrados aqui em baixo. Portanto, todo o curso de água está poluído a partir da sua fonte. Mas esse não será um projeto de um governo, mas de 30 anos. Eu tenho certeza de uma coisa, daqui a 10 ou 15 anos no máximo a Renault e nem a Audi estarão mais no Paraná. Porque elas têm esse costume, quando termina o tempo de isenção voam como passarinhos. É um engodo. Não tenho nada contra o capital internacional que vem para o Paraná. Darei toda a força, contando que venha para produzir e não para sugar.
Folha - O senhor tem meta de geração de empregos em seu governo?
Zimmermann - Nós temos um cálculo de que se na agroindústria cada R$ 1,5 mil gera um emprego estável, será possível gerar neste setor algo entre 150 mil a 200 mil empregos em muito pouco tempo. Isso com base nesse modelo que estou apresentando. Agora quando a agroindústria começar a funcionar, o que ela exigirá: insumos.
Vamos implantar o primeiro emprego. A indústria já instalada que der mais dois, três ou quatro empregos, ela terá o benefício do Estado. A própria universidade será parceira nisso. Ao descobrir uma nova patente, nós vamos convidar empresários que queiram investir nisso e a universidade terá parceria nisso. Ela terá novos recursos para alimentar-se aqui mesmo. Nada de privatizar e nem pagar por serviço. A universidade faz pesquisa.
Folha - Além da Lei Estadual de Cultura o governo Jaime Lerner criou a Conta Cultura, contemplando as atividades artísticas no Estado. O senhor, se eleito pretende manter este projeto? Haverá mudanças no formato já estabelecido? Qual o espaço que a cultura terá no seu governo?
Zimmermann - Na questão da cultura eu vou acabar com essa brincadeira do Lerner. É mais um engodo. O que nós faremos? Eu pretendo pegar um pouco o modelo desenvolvido pelo Pedro Ivo, prefeito de União da Vitória, e incentivar todos os tipos de arte e cultura popular. De fato fazer com que seja valorizada a cultura local e transformar isto em um grande movimento cultural de cada região, para depois promovermos semanas, encontros anuais, torneios intermunicipais de cultura. Nós vamos de fato trabalhar na cultura, porque ela é de fato o que resgata a auto-estima da população. É barato e não custa muito. A mesma coisa faremos com o esporte. Vamos voltar os jogos intermunicipais. E não vamos fazer esse negócio de Costa Oeste, que são projetos caríssimos e nem trazer para cá e manter a Rexona. A Rexona que se mantenha. Eu vou acabar com isso na hora. É o típico negócio que fomenta e corrupção. Nós queremos criar no Paraná sim artistas da bola, da arte, da música e do canto.
Folha - Mas de que forma o senhor pretende investir nisso? Onde encontrar recursos?
Zimmermann - Eu recebi dos secretários de cultura e esportes de todos os municípios um projeto que ao mesmo tempo que é viável, é também barato. Eu não acho que vamos levar teatrinho de Curitiba para Tamarana, pagando ônibus, hotel, alimentação. Eu quero que Tamarana crie o seu núcleo teatral, esse receberá incentivo. Vamos inverter um pouco a lógica. A lógica do atual governo é do grande para o pequeno e a nossa será o pequeno para o grande.
Folha - As competições como Jogos da Juventude e Jogos Abertos continuarão recebendo incentivos no seu governo?
Zimmermann - Esses serão incentivados de outras formas, como me sugeriram os secretários de esportes. Não na mesma modalidade de hoje. Eu assumi praticamente em meu plano de governo a proposta dos secretários municipais de esportes, que é popularizar mais, apostar na competição intermunicipal. Você tem que começar o processo da periferia.
Folha - No seu governo como será o seu relacionamento com a Assembléia Legislativa? Como o senhor sabe é uma Assembléia viciada que trabalha muito na base do troca. Como será a sua relação com os deputados?
Zimmermann - O meu vice (Emerson Nerone), por exemplo, terá uma função de articulação política permanente. Eu penso em primeiramente não conceder favores nem para deputados do PT, nem da oposição. Que tirem o cavalinho da chuva. Deputado do PT não levará verba para o seu município. Eu sei que isso acontece, mas acabou, deputado não vai mais levar chequinho. Se tiver que mandar dinheiro eu mando direto para a conta da prefeitura. O deputado que me fiscalizar até o fundo da raiz será bem tratado. E todos os deputados poderão organizar suas bases, fazer suas exigências, e trazê-las para o grande debate do Estado e nós os respeitaremos.
Folha - Com relação a experiência. Se fala muito que é importante um candidato a governador, prefeito ou presidente ter experiência como administrador, o que o senhor acha disso?
Zimmermann - Gente, eu não quero ter a experiência do FHC e nem do Jaime Lerner para os governos que eles fizeram. Esse tipo de experiência não me vale. Tenho três coisas que considero muito importante. Eu tenho uma história de vida que foi muito lutada, chorada e sofrida. Nada do que eu consegui foi fácil, mas eu venci, saí da roça, numa pobreza total e estudar. Aos 22 anos fui jogado na Europa sem dinheiro e sem família e venci lá, no momento extremamente difícil quando aqui no Brasil ocorria a revolução (de 1964). Eu administrei muitas coisas e graças a Deus, até agora tudo têm crescido. Primeiro, porque eu tenho uma retíssima intenção e, segundo, eu não preciso de dinheiro, não vou colocar as mãos no dinheiro dos outros, do Estado. Em terceiro lugar, eu sei fazer o meu povo trabalhar, brigando, mas faz.
Folha - O PT tem um perfil bem segmentado. Tudo mundo quer chegar no mesmo lugar, mas cada um de um jeito diferente. Sabe-se que há disputas internas dentro do partido. Vocês já conseguiram fechar este grupo novamente para seguir no mesmo caminho?
Zimmermann - O PT só sobrevive porque tem disputa interna. É a coisa mais saudável que existe. É o diálogo que exite entre irmãos. Nós só sobrevivemos e crescemos porque disputamos, mas nós todos sabemos onde queremos chegar. Nós queremos mais justiça, mais distribuição de renda, mais progresso e mais felicidade. Agora, a forma de fazer é diferente.
Folha - Quanto aos pedágios nas estradas paranaenses. O que o senhor pensa a respeito disso e o que pretende fazer?
Zimmermann - Eu vou tomar conhecimento dos contratos. Eu pedi esses dias que me dessem os contratos e recebi mais uma vez um não. Alegaram segredo de Estado. Eu vou tomar conhecimento do contrato e se tiver coisa a ser questionada juridica ou administrativamente será questionado. O que puder ser revisto será. O que não puder ser revisto nós faremos duas coisas que primeiro será acompanhar e fiscalizar o montante do preço do pedágio. Uma coisa quero deixar claro: caminhões com produtos agrícolas terão tarifas privilegiadas no pedágio. Não vai haver aumento no preço. Apresentou a nota, comprovando que se trata de produto agrícola será mais barato. A contrapatida será real. Não vamos tolerar que as concessionárias simplesmente façam o que fazem atuamente, pintam faixas, cortem o mato e dêem por favas contadas. Vamos exigir que se façam pistas de rolamento como devem ser em uma estrada pedagiada. Não haverá também novos postos de pedágio e vamos manter as estradas em dia.
Folha - Na área da saúde qual seu projeto?
Zimmermann - Veja bem, nós temos duas coisas, uma é apertar bastante na questão do saneamento básico. Estamos pensando muito na questão da Sanepar, que é garantir água com qualidade. 70% da questão da saúde está ligada à água e nenhuma família ficará sem água potável. Outro ponto principal é a fiscalização, para que o Sistema Único de Saúde (SUS) de fato funcione, além de investir os 10% na saúde conforme a Emenda Constitucional 29, criar hospitais de média e alta complexidade e de repente utilizar os próprios hospitais universitários para isso, transformando-os em centros de excelência em pesquisa na área da saúde. O que podemos fazer é otimizar os recursos. Há coisas excelentes, só que sobrepostas, funcionando com 10% do seu potencial. Por exemplo, uma clínica cardiológica terá que ter de fato aproveitamento, assim como nas clínicas de hemodiálise. Temos um centro cardiológico praticamente pronto em Pato Branco e só não funciona porque falta meia dúzia de reais lá para implantar. Esse funcionará sim logo, mas não vamos colocar outro centro cardiológico em Francisco Beltrão ou em Palmas. (Colaboraram Walter Ogama, Lucilia Okamura e Cláudio Osti)


