James Alberti
De Curitiba
O delegado-geral João Ricardo Noronha anunciou ontem a criação da Divisão de Narcóticos, que coordenará as ações contra o tráfico de drogas no Estado, e poderá ser chefiada pelo delegado Adauto de Oliveira. A medida foi tomada um dia depois que a CPI do Narcotráfico convocou o delegado Adauto e sua mulher (também delegada), Leila Aparecida Bertolini, para depor em Brasília, o que concretiza a vinda da CPI ao Estado. O projeto da Divisão de Narcóticos vai na segunda-feira para apreciação do secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira. O governo estadual terá, então, que aprovar a criação da divisão na Assembléia Legislativa, o que pode não ocorrer neste ano.
Na entrevista coletiva, no Departamento da Polícia Civil, em Curitiba, Noronha anunciou também a designação de Oliveira terá caráter especial. Ele investigará o envolvimento de policiais civis com o tráfico de drogas no Paraná. Depois de recusar o convite, reclamando da falta de estrutura, Oliveira obteve, no final da tarde, a promessa de reativação da Força Especial de Repressão Anti-Tóxico (Fera), desmontada no começo do ano. Hoje Oliveira deverá apresentar uma relação com funcionários e os recursos que irá precisar.
Oliveira estava há três meses sem função. Sem ter sido consultado oficialmente, o delegado levou um susto ao saber da designação para investigar os policiais por um jornalista. Uma hora depois do anúncio, Oliveira recusou o convite e pediu férias. O delegado disse que iria pedir também um ano de licença, benefício a que tem direito.
Oliveira havia sido designado por Noronha para investigar denúncia, que fez em 1997, de que mais de 33 policiais do Estado estão ligados ao tráfico de drogas. Diante do convite para depor na CPI, a nomeação de Oliveira foi encarada como uma satisfação à opinião pública do governo do Estado, que havia posto ‘‘na geladeira’’ um dos delegados mais respeitados do Paraná. Ontem de manhã, o governador Jaime Lerner havia afirmado que a CPI do Narcotráfico teria todo o apoio no Estado. O discurso foi repetido por Noronha ao anunciar a designação de Oliveira. ‘‘Vamos fazer com que ele tenha condições e tempo para investigar’’, disse Noronha.
Noronha disse que Adauto Oliveira teria à disposição três investigadores, um escrivão e um carro. O delegado teria ainda uma sala na Corregedoria da Polícia Civil. O número de investigadores seria exatamente a metade do que Oliveira tinha quando comandava a Fera. ‘‘Todo apoio possível do governo do Paraná no combate ao narcotráfico são três homens, um escrivão e um carro?’’, questionou o delegado. ‘‘Digamos que fossem só 33 policiais envolvidos com o tráfico, você acha que quatro policiais podem prender todos?’’
Mesmo sem ter sido comunicado oficialmente, Adauto Oliveira telefonou para o delegado geral e recusou o cargo. A recusa de Oliveria irritou o governador Jaime Lerner, que teria cobrado uma postura de Noronha. Assessores do governo do Estado entraram no circuito para apagar o incêndio provocado pela nomeação de última hora. ‘‘Você vai ter os recursos que quiser’’, teria dito Noronha a Oliveira, que reclamava da estrutura. A proposta fez o delegado pensar. No final da tarde Oliveira e Noronha resolveram a questão na reunião às pressas.

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