Poder proporciona muita mordomia
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domingo, 12 de janeiro de 2003
Eugênia Lopes e Mariângela Gallucci 
Brasília- Benefícios indiretos, nas formas mais variadas, engordam discretamente os salários de autoridades dos Três Poderes da República. Ministros de Estado e do Supremo Tribunal Federal (STF), deputados e senadores reclamam constantemente dos vencimentos do setor público, mas têm privilégios e mordomias comparáveis apenas a executivos de multinacionais. Têm direito a casa ou generosos auxílios-moradia, carro de luxo com motorista e gasolina por conta dos cofres públicos, podem contratar assessores diretos com salários em torno de R$ 5 mil e, quando vão ao exterior, viajam sempre em primeira classe.
Ao lado dos ministros do Supremo, os parlamentares são os campeões em privilégios. Os deputados e senadores podem receber até 19 salários ao ano, cada um de R$ 12,7 mil, se forem convocados extraordinariamente duas vezes por ano. Ganham ainda auxílio moradia de R$ 3 mil, usado por alguns para aumentar o seu patrimônio com o pagamento de prestações de apart-hotéis de luxo em Brasília. Além disso, recebem quatro passagens aéreas de ida e volta para seu Estado de origem, sendo que uma delas tem escala obrigatória no Rio de Janeiro.
Já os ministros do STF têm cargo vitalício e, quando se aposentam, recebem salário integral pelo resto da vida. Também podem dar aulas em faculdades e cobrar cerca de R$ 5 mil por palestra em congressos de Direito. Quando viajam representando o Supremo, ganham diária de R$ 330, no Brasil, e de US$ 416 (cerca de R$ 1,4 mil), no exterior. No governo Collor, a maioria dos integrantes do tribunal conseguiu engordar seu patrimônio: comprou por preços abaixo do mercado e a longo prazo luxuosos apartamentos em Brasília que pertenciam ao poder público. Hoje, cada imóvel, com cerca de 600 metros quadrados úteis, está avaliado em mais de R$ 1 milhão.
Dias antes de deixar o Palácio do Planalto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu verbalizar as facilidades vividas por um ocupante de um alto cargo público. Ele confessou que tinha dúvida sobre se ainda sabia ou não dirigir um automóvel. Nos dois anos como ministro do governo Itamar Franco e nos oito como presidente da República, Fernando Henrique teve motoristas a sua disposição por tempo integral.
Essa situação passou a fazer parte do cotidiano do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva desde que ele tomou posse como presidente. Mas, mesmo depois de ter sido eleito com mais de 52 milhões de votos, Lula é hoje o chefe de Poder que menos ganha na Praça dos Três Poderes: cerca de R$ 9 mil contra os R$ 12,7 mil pagos aos parlamentares e os R$ 17,1 mil recebidos pela maioria dos ministros do STF. O presidente usufrui, no entanto, de várias mordomias: mora no Palácio da Alvorada, onde tem uma piscina olímpica a sua inteira disposição, toda a sua alimentação é bancada pela União e, dificilmente, tira a carteira do bolso para arcar com qualquer despesa.


