Poder de ACM não tem herdeiros na Bahia
Aos setenta anos de idade, o senador Antônio Carlos Magalhães conseguiu um poder que poucos na história desfrutaram, exceto pelo uso exclusivo da força: na Bahia é o monarca; no Senado, um temido presidente da instituição e, atravessando a rua, no Palácio do Planalto, um aliado fiel, porém indigesto, que consegue vitórias para o governo, sabe quanto vale e cobra prontamente o preço, quando preciso. ACM só não cumpriu o sonho de ser presidente da República, embora não o tenha abandonado. Transferiu-o para o filho, Luís Eduardo. Tudo caminhava como se fosse a ordem natural das coisas, mas foi interrompido pela morte do filho. O poder de Antônio Carlos não tem mais herdeiros.
Na Bahia, para os carlistas, era tudo cristalino: Luís Eduardo, o herdeiro, seria o governador agora e o presidente em 2002. Na quarta-feira, quando o bispo auxiliar de Salvador, Dom Eugênio de Araújo Sales, terminou os serviços religiosos, foram depositadas no túmulo, junto com o corpo do filho querido morto na véspera, todas as verdades tidas como óbvias da política baiana. O poder de Antônio Carlos não tem mais herdeiros. Vou rezar para o senador ter saúde, senão o Estado acaba, dizia a dona de casa Edna Araújo Sales, enquanto esperava na fila do velório de Luís Eduardo, na Assembléia Legislativa. Foi uma perda muito grande para a Bahia, o Luís Eduardo era nosso futuro presidente.
A dor estampada no rosto do pai não tinha tamanho. Entre os baianos, no entanto, a aposta era se o presidente do Senado, dessa vez como nos outros grandes baques da sua vida, se recuperaria depressa - o que significa dizer retomar as rédeas da política regional, que ficou em suspenso esperando a sua decisão, e voltar como um trator para o Senado, tomando para si a conclusão das reformas, defendidas com especial paixão pelo filho. Na quinta-feira, ainda chorando muito, informou aos seus assessores no Senado, por telefone, que na segunda-feira estaria cumprindo expediente normal, o que poupou seus funcionários do incômodo de ter que desmentir os insistentes boatos de que o senador renunciaria ao mandato, disputaria o governo do Estado novamente e se recolheria, no final da sua vida pública, à Bahia.
Sucessão- Contou a decisão de voltar ao trabalho aos amigos, que durante todo o dia foram ao edifício Stela Maris visitá-lo. A um deles, chegou a tentar uma troca de idéias sobre o que fazer com a política baiana. Não quero, disse, sem veemência, ao amigo que sugeria que ele próprio, ACM, disputasse a eleição no lugar do filho. Estou procurando descobrir o que Luís Eduardo gostaria que eu fizesse, disse, dando a entender que, na sua cabeça, já existia um esboço de solução para o problema estadual. Enquanto o senador não vier a público dizer qual é sua decisão - e, na Bahia, essas decisões são prerrogativas exclusivamente suas - a sucessão estadual estará parada. Ninguém faz nada enquanto Antônio Carlos não disser o que quer, afirma um oposicionista.
É cedo para pensar o que fazer, afirmou, no enterro de Luís Eduardo, um parlamentar baiano, impressionado com a extensão do desespero do senador pela morte do herdeiro. Antes de Antônio Carlos recuperar-se para a política, é preciso que se recupere para a vida. Na Bahia, no entanto, a mística que se criou em torno da fortaleza de seu imperador é tão grande que poucos se aventuram a prever que a reação de ACM ao desgosto será afastar-se da política. Que o homem está destroçado, está, mas acreditar que ele jogou a toalha é um total desconhecimento de sua personalidade, afirma outro político baiano.





