Arquivo FolhaSob fogo cruzadoRezende: ministro é acusado de usar o PMDB para beneficiar familiaresDepois dos aliados do PFL, que se consideram ofendidos com a indicação do senador tucano José Serra (SP) para o Ministério da Saúde, o PMDB também decidiu segurar a indicação dos ministros de sua quota. Um clima de desconfiança tomou conta do partido, com as suspeitas de que o presidente Fernando Henrique Cardoso estimula críticas públicas e reservadas ao líder no Senado, Jáder Barbalho (PA).
A cúpula governista do PMDB ia entregar ontem ao presidente Fernando Henrique Cardoso as indicações para os três ministérios que comanda no governo, mas a visita ao Planalto foi suspensa.
Aliados de Jader perceberam que o Palácio do Planalto começou a revolver antigas denúncias contra o líder, envolvendo a malversação de recursos públicos durante o período em que foi governador do Pará. O argumento vem sendo usado para vetar a ida do líder para o Ministério da Justiça, mas os peemedebistas avaliam que se trata de um movimento equivocado: Barbalho reafirmou que deseja voltar ao governo do Estado; não quer ser ministro.
O PMDB aliado deverá remarcar o encontro com o presidente para o início da semana com o objetivo de atender à lei eleitoral, que exije a saída dos ministros candidatos seis meses antes das eleições de outubro. As notícias contra Barbalho, dando conta das resistências do Planalto e do PSDB do presidente ao ingresso no ministério, não só irritaram e magoaram o líder, que fora recebido na véspera por Fernando Henrique, como despertaram a solidariedade no partido.
‘‘Desmarcamos o encontro porque o Jáder não estava em condições de participar e, sem ele, a conversa não teria sentido’’, contou o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que reuniu a cúpula do PMDB para um café da manhã e telefonou logo cedo para o presidente, cancelando a audiência. Os dirigentes do PMDB consideram inadmissível qualquer restrição do Planalto ao líder que enfrentou os rebeldes do partido, e defendeu o governo com unhas e dentes na Convenção Nacional do PMDB.
Temer insistiu ontem que Barbalho nunca disse querer ser ministro e que jamais ouviu reparos de Fernando Henrique. ‘‘O nome dele foi objeto de várias conversas, e o presidente nunca fez objeção nem manifestou qualquer desagrado’’, disse o presidente da Câmara. A ordem agora é parar tudo e aguardar que o Planalto se encarregue de desfazer a má impressão. O presidente nacional do PSDB, senador Teotônio Vilela (PR), fez a parte dele ontem mesmo. ‘‘Não existe veto algum ao senador Jáder, por quem tenho o maior respeito’’, disse Vilela. Além de desconhecer qualquer ‘‘movimento de resistência’’ ao nome de Barbalho entre os tucanos, o senador afirmou que isto não teria cabimento porque a escolha de ministros é exclusiva do presidente.
A cúpula do PMDB programa uma conversa dura com Fernando Henrique. ‘‘Vamos querer saber se ainda temos condições de trabalhar juntos como aliados e, principalmente, se o presidente vai entregar os ministérios do PMDB às indicações do partido’’, resumiu Temer. Dos três postos do PMDB no primeiro escalão, há dúvidas apenas quanto ao substituto do ministro da Justiça, Íris Rezende. Afinal, o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, deve continuar mesmo no comando da pasta, a pedido do próprio presidente, e o secretário de Políticas Regionais, Fernando Catão, também deve ser mantido, embora esteja demissionário há duas semanas.
O ministro da Justiça, Íris Rezende, vai entregar o cargo no dia 2 para disputar o governo de Goiás. A decisão foi confirmada ontem pelo governador Maguito Vilela (PMDB), que vai trocar a reeleição e os 43% de intenções de votos para disputar uma vaga no Senado.
‘‘Vou buscar um espaço novo’’, justificou Vilela, que terá como suplente a mulher de Rezende, Íris Araújo. Vilela deixa no lugar o vice-governador Naphtali Alves (PMDB), que assume no dia 3. Também deixa como herança um Estado mais rico, próspero, na posição de nona maior economia brasileira; R$ 500 milhões de dívidas a menos após três anos e três meses de governo; os salários em dia; R$ 600 milhões em caixa, e um programa social elogiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na semana passada.
O governador também sai, explicou, porque é contrário à reeleição. ‘‘Apóio e vou pedir votos para o presidente Fernando Henrique, mas eu gosto e defendo a renovação’’, disse Vilela. Como a oposição, formada pelo PSDB, PTB e PFL, escolheu o deputado federal Roberto Balestra (PPB) como o candidato, a disputa pelo governo de Goiás será polarizada entre o parlamentar e Rezende.
A escolha de Íris Araújo para suplente de Vilela gerou críticas. O prefeito de Goiânia, Nion Albernaz (PSDB), disse que o ministro ‘‘usa o PMDB em prol da ‘familiocracia’’. O ex-candidato a presidente Ronaldo Caiado, do PFL regional, acusa-o de beneficiar a família e os amigos. ‘‘Primeiro foi o irmão (Otoniel Machado), no Senado, depois, o amigo (José Essad), agora vem a mulher e depois o resto da parentada.’ (AE)

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