Ed Ferreira/Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Pé atrásSarney fala durante a convenção (ao lado de Requião, Quércia e Paes de Andrade): discurso fraco O PMDB não terá candidato a presidente da República nem apoiará oficialmente a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. A convenção nacional do partido, realizada ontem, não atingiu quórum suficiente para deliberação. O grupo governista do PMDB boicotou a convenção temendo que os dissidentes promovessem agressões físicas.
O presidente nacional do partido, deputado Paes de Andrade (CE), não reuniu convencionais suficientes para oficializar a candidatura do senador Roberto Requião (PR). Dos 523 convencionais, compareceram 211. Isso representou 256 votos dos 705 possíveis - alguns convencionais têm direito a mais de um voto. O quórum mínimo para deliberação era 353 votos.
Os convencionais defensores da candidatura própria do partido chegaram a depositar votos numa urna, de ‘‘sim’’ ou ‘‘não’’ ao nome de Requião como candidato do PMDB. Paes de Andrade, no entanto, decidiu não abrir a urna, temeroso do baixo desempenho de Requião na votação.
Após o encerramento da convenção, o ex-deputado quercista Airton Sandoval (SP), favorável à candidatura própria, anunciou que ingressará com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que ele determine qual a maneira correta de interpreteção dos estatutos do PMDB.
Sandoval disse que quer saber se para deliberar a convenção precisa de maioria absoluta - metade mais um dos convencionais - ou maioria simples, isto é, metade mais um dos presentes.
O senador José Sarney (AP) e o ex-presidente Itamar Franco (MG) não apresentaram suas candidaturas à Presidência. Itamar sequer foi à convenção nem mandou representante.
Sem vencedoresO resultado final não representa vitória para nenhum dos grupos. Paes queria lançar um candidato para fazer oposição frontal a FHC. Requião teria cerca de nove minutos e meio diários no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV. Além de ter um compromisso político com FHC, os governistas queriam oficializar o seu apoio para transferir seis minutos e 58 segundos do tempo do partido ao candidato (tempo proporcional à bancada na Câmara).
Com a decisão de ontem, porém, FHC não perde todo esse tempo, que será dividido proporcionalmente entre todos os candidatos a presidente, de acordo com o tamanho de cada coligação. O presidente herdará do PMDB quatro minutos e seis segundos. O PMDB ocupa atualmente dois ministérios e mais de cem cargos federais.
Requião disse que convencionais do partido foram ‘‘comprados’’ pelo grupo governista. ‘‘O governo comprou e não recebeu. Os governistas venderam e não entregaram. O PMDB não é legenda de aluguel’’, afirmou. O ex-governador do Paraná disse que houve ‘‘uma vitória’’ porque o PMDB não manifestou oficialmente apoio à candidatura do presidente Fernando Henrique.
Para arrematar o que chama de vitória, Requião afirmou que trabalha com a possibilidade de a ala governista não conseguir convocar nova convenção até amanhã, prazo final para as convenções, de acordo com a legislação eleitoral.
O grupo de Paes ficou decepcionado com a decisão de Sarney de não colocar a sua candidatura na convenção. Ele exigia a unidade do partido para se lançar candidato - algo inviável por causa da divisão interna do PMDB. Sarney compareceu à convenção, mas fez um discurso politicamente fraco. O ex-presidente fez raras críticas ao governo FHC e não citou o nome de Requião como pré-candidato do partido à presidência. Passou parte do discurso explicando seu ingresso no PMDB.
‘‘Cheguei ao partido com a carreira pronta. Não procurei abrigo no partido. Outros procuraram o PMDB como guarda-chuva, fizeram carreira e depois saíram para fundar outros partidos’’, completou Sarney. A carreira de Sarney foi construída na Arena e no PDS, partidos que deram sustentação ao regime militar (64-85) e foram combatidos pelo MDB e, depois, pelo PMDB. A frase de Sarney também contém uma crítica a FHC, que deixou o PMDB para fundar o PSDB.
Segundo o ex-governador Orestes Quércia (SP), Sarney só aceitou discursar depois de ser informado de que não haveria quórum. Parte dos convencionais tentou uma manobra regimental para oficializar a candidatura de Requião, mesmo sem quórum. Eles queriam que a decisão fosse tomada por maioria dos presentes. Paes e Requião foram pressionados a adotar a manobra. Paes ouviu a seguinte frase de um convencional: ‘‘Faça, presidente. O Sr. é um homem de luta’’. Paes respondeu: ‘‘Sou homem de luta para praticar atos legais’’. (Colaborou Leandro Donatti).

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