Uma conversa entre o presidente Fernando Henrique e Itamar Franco pode ocorrer nos próximos dias. Segundo um integrante da executiva do PMDB, será uma tentativa de buscar um entendimento e resolver a crise gerada com a decretação da moratória anunciada pelo governador mineiro. Os ministros da Justiça, Renan Calheiros, e dos Transportes, Eliseu Padilha, foram destacados para atuarem como ‘‘bombeiros’’ desse incêndio. Outro que vai tentar interferir no caso é o presidente do PMDB, senador Jáder Barbalho, que ontem tentava falar com Itamar pelo telefone, além de ter agendado um encontro com Fernando Henrique nesse final de semana.
Ontem, Barbalho defendeu o diálogo entre FHC e Itamar para contornar a crise. ‘‘Esse impasse tem que ser superado com o diálogo’’, disse Jáder. Segundo o senador, todo o problema foi causado por dificuldades de comunicação entre o ‘‘segundo escalão’’ do Ministério da Fazenda e assessores do governo de Minas. ‘‘Ninguém pode romper um diálogo quando está em jogo a administração das coisas públicas, por isso acho possível a manutenção desse relacionamento.’’ Barbalho ressaltou que o contrato foi feito para ser cumprido, mas que é possível ser renegociado.
O presidente do PMDB lembrou que recentemente o governo federal alterou uma MP para prorrogar por um ano o pagamento da dívida de seis Estados com a União. O precedente apareceu na reedição da MP 1.702-31, feita no dia 27 de novembro, e que acabou beneficiando São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Pará, Piauí e Maranhão. Esses Estados deveriam pagar até o dia 30 de novembro 20% do valor de suas dívidas. Caso não pagassem esse valor, os juros anuais subiriam de 6% para 7,5%.
‘‘Essa foi uma moratória negociada de um ano e o Itamar só quer três meses’’, observou Jáder. ‘‘Isso mostra que havia um contrato e que foi modificado por interesses políticos’’, completou, lembrando que na ocasião o governo de São Paulo acenava com grandes dificuldades em pagar a dívida. Para ele, se for feito um entendimento semelhante ao da MP 1.702 não haverá enfraquecimento de nenhum dos dois lados. ‘‘Tecnicamente já temos uma solução’’, comemorou. ‘‘O que não pode agora é que nenhum dos dois lados permaneça no equívoco’’.
A decretação da moratória por Itamar acabou gerando uma crise no PMDB. Mas dentro do partido uma coisa está clara: o jogo que Itamar está fazendo é muito mais regional do que nacional. ‘‘A bomba explodiu na mão do Itamar’’, observa o deputado Henrique Eduardo Alves (RN), da executiva do partido.
‘‘Estamos pisando em ovos’’, disse o vice-líder do PMDB, deputado Wagner Rossi (SP). Para o governo, a rebelião de Itamar pode trazer surpresas desagradáveis. Isso porque ele controla os 13 votos do PMDB de Minas, já que loteou praticamente todo o seu secretariado. ‘‘É preciso um entendimento urgente’’, avisou Henrique Alves.
Enquanto isso, a Executiva Nacional do PSDB divulgou ontem uma nota qualificando de ‘‘pouco responsável’’ a decisão de Itamar Franco de decretar a moratória. A nota afirma que a moratória de 90 dias é ‘‘inepta quanto aos seus efeitos’’ e ‘‘pretendeu ameaçar o projeto estratégico do governo Fernando Henrique, confirmado nas urnas de outubro último por 36 milhões de eleitores’’.
A Executiva do PSDB diz também que o governador, ‘‘absurdamente, negou os termos do acordo (de rolagem da dívida mineira) estabelecido quando o próprio Sr. Itamar Franco era presidente da República’’. Na nota, a Executiva afirma que o PSDB, ‘‘fortalecido em sua coerência e em sua convicção, denuncia a manobra do governador de Minas Gerais como meramente política, que promove o confronto e não o diálogo, e desacredita no Brasil amadurecido, que não aceita leviandades e retrocessos’’.

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