Brasília - O plenário da Câmara cassou na noite de ontem, em votação secreta, o mandato do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), 52, autor das denúncias do esquema do ''mensalão''. Foram 313 votos contra 156. Eram necessários 257 para a perda do mandato. Num total de 489, houve 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos. Outros 24 deputados não compareceram à sessão.
''Esta é última semana de inverno. A primavera está chegando'', disse Jefferson, segundo seus assessores, ao saber do resultado. Ele se torna o primeiro parlamentar a perder o mandato, na atual crise, por deliberação do plenário.
O petebista fica agora inelegível até 2015 e só poderá concorrer a cargo eletivo, na melhor das hipóteses, nas eleições municipais de 2016. Jefferson, que há 23 anos é deputado federal, foi o responsável pelo surgimento da pior crise política do governo Luiz Inácio Lula da Silva ao denunciar, em entrevista publicada na Folha de S.Paulo em 6 de junho, o suposto esquema de pagamento de mesada pelo PT a deputados de partidos aliados.
Em consequência, dois ministros deixaram os cargos, dois deputados já renunciaram, toda a direção do PT foi afastada e uma série de diretores de estatais perderam o emprego. Bem ao seu estilo, Jefferson fez um discurso de despedida, antes de saber o resultado, recheado de frases de efeito, de elogios e agradecimentos a aliados, a familiares, mas não poupou os adversários políticos, entre os quais incluiu, agora, Lula.
Acusado pelo Conselho de Ética da Câmara de quebrar o decoro ao fazer acusações sem provas e ao admitir a prática de crimes como o tráfico de influências em estatais, Jefferson disse que Lula foi ''omisso'' e relapso ao delegar funções que, segundo o petebista, foram usadas por auxiliares para promover ''o mais escandaloso processo de aluguel de mandatos'' da história do Congresso.
Ovacionado por galerias lotadas de pessoas com camisetas e cartazes com dizeres ''eu acredito em Roberto Jefferson'', o petebista disse que sai ''de cabeça erguida'' e que não retira ''nenhuma vírgula'' das acusações que fez.
A estratégia de tentar obter votos de última hora com o argumento de que o Palácio do Planalto estaria tentando espalhar uma ''guerra fratricida'' no Congresso não surtiu efeito. Mesmo assim, o petebista teve adeptos declarados e não só no PTB. Cleonâncio Fonseca (PP-SE), por exemplo, dizia para quem quisesse ouvir que não vota em cassação de deputado.
Questionado como se sentiria se Jefferson escapasse por apenas um voto, respondeu: ''Aí subo na Mesa e grito: ''Eu salvei Roberto Jefferson!'''.
A cassação do petebista deve marcar o início de uma série de punições contra deputados acusados de envolvimento no ''mensalão''. O próximo da fila deve ser o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), que ontem foi acusado por Jefferson de tratar o Congresso com um prostíbulo quando chefiava a Casa Civil e atuava como articulador político do governo.
Outros deputados além de Dirceu, Sandro Mabel (PL-GO) e Romeu Queiroz (PTB-MG) já sofrem processo de cassação no Conselho de Ética e poderão ter o mesmo destino de Jefferson. Outros 13, entre eles seis petistas, devem ter os processos abertos nos próximos dias. Alguns podem renunciar para escapar à inelegibilidade resultante da cassação.
''Foram as ''mentiras' de Jefferson que promoveram a maior reforma moral no governo Lula'', afirmou na tribuna um dos advogados do petebista, Itapuã de Messias.

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