Abatido e com expressão fechada, o presidente Fernando Henrique Cardoso permaneceu ontem, por quase dez minutos, ao lado do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Antes de entrar na UTI para falar com o velho amigo de mais de 20 anos, Fernando Henrique estava acompanhado apenas da mulher de Motta, Vilma, com quem conversou demoradamente.
‘‘O presidente estava extremamente emocionado’’, contou um assessor. Depois de deixar o hospital, Fernando Henrique viajou no Boeing presidencial até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. No início da viagem, conversou com os ministros das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, das Minas e Energia, Raimundo Brito, e da Justiça, Renan Calheiros. Em seguida, Fernando Henrique deitou-se na cama da cabine privada no Boeing para tentar se recuperar da noite mal- dormida.
Na noite de anteontem, assim que foi informado de que o estado de saúde do ministro havia piorado, Fernando Henrique decidiu visitá-lo na UTI e chegou em São Paulo por volta de meia-noite. O presidente ficará fora do País por três dias, participando da 2ª Cúpula das Américas (leia sobre o assunto na pág. 9), e decidiu revê-lo antes de embarcar. ‘‘Foi um gesto dele’’, admitiu um assessor. ‘‘A gente pensa que o ministro vai se recuperar’’, completou.
A visita de Fernando Henrique é um sinal da gravidade do estado do ministro. Na quarta-feira, dois dias após Motta apresentar sinais de melhora, o porta-voz da Presidência da República, embaixador Sérgio Amaral, afirmou que Fernando Henrique só iria até São Paulo depois que o amigo tivesse deixado a UTI. ‘‘O presidente não está pensando em visitar o ministro porque ele ainda está na UTI, mas tão logo possa receber visitas, o presidente tratará de visitá-lo’’, disse na quarta-feira.
Fernando Henrique permaneceu na Bolívia por apenas uma hora. Abatido e com olheiras, o presidente cumpriu os compromissos protocolares do encontro e chegou a ter uma rápida conversa reservada com o presidente boliviano, Hugo Banzer, antes de embarcar para o Chile. Durante a cerimônia, o presidente permaneceu sério, apenas sorriu de forma contida, no momento dos cumprimentos, e leu o discurso escrito em espanhol. Durante os quatro anos de mandato na Presidência, a grande maioria dos discursos de Fernando Henrique sempre foi feita de improviso.
Motta e o presidente são amigos desde 1978, na campanha de Fernando Henrique ao Senado. Desde esta época, os dois fizeram uma grande amizade e chegaram a comprar, em sociedade, a Fazenda Córrego do Rio, em Buritis (MG). Motta sempre foi identificado como a pessoa que traduz o pensamento do presidente. Em algumas ocasiões, quando as declarações eram duras e contrárias aos aliados da base do governo, foi preciso o porta-voz dizer claramente que aquele não era o pensamento do presidente.

mockup