Os deputados federais Ronivon Santiago e João Maia, do Acre, foram expulsos ontem do PFL. A decisão foi tomada pela executiva nacional do partido. O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), exigiu da Mesa da Câmara a cassação dos cinco deputados que teriam vendido seu voto pró-reeleição antes mesmo do fim do prazo para os trabalhos da comissão de sindicância, terça-feira.
O PFL expulsou Ronivon Santiago e João Maia porque os considerou réus confessos. Os dois teria dito, conforme declarações gravadas em fitas, que receberam, cada um, R$ 200 mil pelo voto a favor da reeleição, no dia 28 de janeiro. O partido resolveu que só vai examinar a situação de Osmir Lima e Zila Bezerra, também do Acre, citados por Ronivon também como vendedores de votos, depois do fim dos trabalhos da comissão de sindicância. Na mesma situação está o governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL), citado como um dos corruptores, ao lado do governador do Acre, Orleir Cameli (sem partido).
O quinto acusado de receber R$ 200 mil para votar a favor da reeleição é Chicão Brígido (PMDB), que se licenciou do cargo para assumir a função de secretário da Prefeitura de Rio Branco. Chicão continuou negando ter recebido dinheiro e insistiu em apoiar a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a denúncia. O presidente do PMDB, Paes de Andrade (CE), divulgou nota pedindo punição aos deputados, se for comprovada a culpa, além de também dar seu apoio público a uma CPI.
O clima foi de tensão durante todo o dia. Boatos e afirmativas sem provas de que parlamentares de outros estados também receberam dinheiro tomaram o dia no Congresso. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), disse que as notícias sobre a venda de votos são pesadas ‘‘e muito graves’’. Temer mostrou-se favorável a uma solução rápida, no estilo pedido por Antônio Carlos: ‘‘A cassação sumária é possível.’
A comissão de sindicância instalada pela Câmara para apurar a venda de votos e propor soluções para a quebra do decoro parlamentar começou ontem a ouvir os acusados, sem se preocupar com a degravação da fita. Esta decisão foi imposta pelo presidente da Câmara, que pediu menos formalidades processuais e mais rapidez na conclusão das investigações. O primeiro a ser ouvido foi o deputado Ronivon Santiago. Depois, seria a vez de Osmir Lima e de Zila Bezerra. O depoimento de João Maia foi programado para hoje, às 10 horas. O deputado chegou a convocar uma entrevista coletiva em sua residência, mas cancelou. Depois será a vez de Chicão. Temer disse que não concederá nenhum dia de prorrogação para os trabalhos da comissão.
Uma comissão de sindicância tem poderes limitados. Não pode, por exemplo, convocar pessoas para ouvir seus depoimentos. Pode apenas convidar. Também não pode quebrar o sigilo bancário. Todos os cinco deputados acusados da venda de votos foram ‘‘convidados’’ a comparecer à comissão. Também receberam o mesmo convite o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, os governadores do Acre e do Amazonas e o deputado Pauderney Avelino (PFL-AM). De acordo com a gravação da fita, divulgada pela ‘‘Folha de S. Paulo’’, Pauderney Avelino foi um dos intermediários da operação dos votos favoráveis à reeleição. Ele disse que a inclusão de seu nome no escândalo é vingança do ex-prefeito Paulo Maluf, do qual era adversário dentro do PPB.
O deputado Ronivon Santiago (AC), expulso ontem do PFL e acusado de receber R$ 200 mil pelo seu voto pró-reeleição, também se beneficiou com uma concessão de tevê no Acre. A revelação é do deputado Walter Pinheiro (PT-BA). Santiago teria obtido no Ministério das Comunicações, há cerca de 40 dias, uma concessão de TV em nome de Walcy de Souza Campos, uma espécie de laranja do deputado. A concessão foi publicada dia 9, no ‘‘Diário Oficial’’ da União.
A TV Quinari (canal 40 em UHF), que transmite a programação da Central Nacional de Televisão (CNT), está em nome também da mulher de Walcy, Nilza Maria de Freitas Campos. O nome fantasia da empresa é V&N Imagens e Sons Ltda. Ela funciona na rua Projeta S/nº, em Senador Guiomard, cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, a 24 quilometros de Rio Branco.
O novo canal pode operar, segundo Campos, com até 10 mil kilowatts de potência. Sua intenção é expandir os negócios para atingir Rio Branco. ‘‘É um investimento modesto por enquanto, mas a nossa intenção é ampliá-lo para concorrer com as demais emissoras’’, disse numa recente entrevista aos jornais da capital do Acre.
Campos é ex-taxista e técnico em eletrônica. Ele se orgulha de ter ganho a concessão da emissora de tevê, ‘‘sem qualquer interferência política’’. O dono da TV Quinari nega que seja testa-de-ferro de Ronivon. Ele diz que a emissora foi montada com seus próprios recursos. ‘‘Vendi tudo o que tinha, até meu carro de praça, para montar a tevê.’’
Em Senador Guiomard, Campos não tem sequer telefone. O número que consta da lista da Teleacre - (068) 232-2470 - já não é dele. Foi vendida há cerca de um ano para Vilma Pereira Gomes. A mulher também confirma que Campos até há pouco tempo trabalhava como taxista na cidade.

mockup