São Paulo - Relatório da Polícia Federal aponta contradição no depoimento prestado por Luiz Inácio Lula da Silva à Operação Aletheia, em 4 de março, quando o ex-presidente foi conduzido coercitivamente. Na ocasião, Lula foi levado pelos agentes federais para depor no Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, e afirmou não conhecer o executivo Paulo Gordilho, ligado à empreiteira OAS.

Conforme o relatório da PF, as afirmações do petista vão "em sentido contrário" a mensagens apreendidas pela Lava Jato. Gordilho é alvo das investigações envolvendo o pagamento de benfeitorias no Sítio Santa Bárbara, em Atibaia, e no tríplex do Edifício Solaris, no Guarujá, ambos em São Paulo. A força-tarefa da Lava Jato suspeita que os imóveis serviam como propriedade oculta do ex-presidente.

Além de ser a dona do apartamento no Guarujá, a OAS - em conjunto com a Odebrecht - teria feito obras na propriedade rural em Atibaia. O documento da PF, com data de 22 de junho, destaca a troca de mensagens entre Gordilho, sua filha Isnaia e o dono da OAS, Léo Pinheiro.

O relatório confrontou os diálogos com o depoimento prestado por Lula em março. "Na ocasião, num dos momentos, Lula revela que não conhece o senhor Paulo Gordilho, ex-diretor da OAS Empreendimentos, declaração esta que vai em sentido contrário do contexto da troca de mensagens inseridas, uma vez que, pelo teor dessas mensagens, era possível notar que havia alguma relação de proximidade entre Paulo Gordilho e o ex-presidente Lula", diz o relatório.

‘CACHAÇA DA BOA’
Outro laudo da Polícia Federal, anexado aos autos da Lava Jato no fim de julho, destaca uma foto de um encontro entre Gordilho e Lula em fevereiro de 2014. "Bebemos eu e ele uma garrafa de cachaça da boa Havana mineira e uma (sic) 15 cervejas", disse o ex-diretor da empreiteira em uma mensagem da época. O encontro teria ocorrido no dia 9 de fevereiro de 2014, na área de churrasqueira da propriedade. Segundo o laudo, foram encontradas 10 fotos com registro da reunião no sítio de Atibaia.

No depoimento prestado em março deste ano, o delegado da PF Luciano Flores de Lima questiona o ex-presidente: "O senhor conhece o senhor Paulo Gordilho, ex-diretor da OAS Empreendimento?"

Lula responde: "Por nome, não, mas..." O delegado, então, retorna à pergunta. "Não? O Paulo Gordilho, não?" O ex-presidente responde fazendo "sinal negativo com a cabeça", segundo o relatório.

"O senhor conhece algum ex-diretor da OAS?", questiona o delegado. "Não", afirma Lula. O delegado, em outro trecho do depoimento, pergunta novamente a ele. "Esse Paulo Roberto Valente Gordilho, ex-diretor da OAS, que eu lhe perguntei, o senhor sabe dizer se ele tinha alguma relação com esse imóvel (tríplex do Guarujá), tinha alguma coisa lá?" "Não", diz Lula.

No relatório, a PF destacou mensagens em que Gordilho fala com a filha sobre um encontro em Atibaia "na fazenda de Lula". Estariam presentes o próprio executivo, Léo Pinheiro, o ex-presidente e a ex-primeira-dama Marisa Letícia "para tratar de assuntos de arquitetura relacionados à casa e à lagoa que está vazando, como explica o próprio Paulo Gordilho a sua filha nas mensagens".
Para a PF, as mensagens demonstram "a atuação de Paulo Gordilho, e, consequentemente, da Construtora OAS, em obras realizadas no sítio em Atibaia/SP, indicando ainda a ciência por parte do ex-presidente Lula acerca do assunto."

Lula é alvo de três inquéritos centrais da Lava Jato - um apura a propriedade e as reformas no sítio Santa Bárbara em Atibaia (SP); outro apura as reformas no tríplex no Guarujá; e o terceiro investiga os pagamentos e doações para LILS Palestras e Eventos e ao Instituto Lula.

DEFESA
Em nota, a defesa de Lula afirmou que o ex-presidente "não é obrigado a recordar o nome de todas as pessoas que já tiraram foto com ele". Os advogados do petista acusam os investigadores da Lava Jato de usar "procedimentos ocultos e vazamentos em série para continuar o ataque à reputação" do petista e seus familiares. "O ex-presidente Lula e seus familiares não são proprietários de qualquer imóvel no Edifício Solaris, no Guarujá, ou em Atibaia. Os imóveis pertencentes a Lula estão devidamente declarados à Receita Federal." Os advogados disseram que a PF concluiu uma investigação pública sobre o Solaris sem identificar um apartamento pertencente a Lula e "aguardam decisão do Supremo Tribunal Federal para combater essa arbitrariedade".

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo
Agência Estado

mockup