Brasília - A Polícia Federal está tentando descobrir um jeito de ouvir seu próprio chefe, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, no caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo. O episódio já causou a queda do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, do presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso e de três assessores.
Com dois meses de atraso, o inquérito, a cujos autos o jornal ''O Estado de S. Paulo'' teve acesso, está inconcluso por causa de alguns pontos obscuros que o Ministério Público Federal insiste em esclarecer. Um deles é a confusa participação de dois assessores de Bastos na violação da conta do caseiro. O relatório final está praticamente pronto, mas a recusa do ministro em depor espontaneamente está deixando de saia justa o delegado Rodrigo Carneiro Gomes, encarregado do inquérito.
Os assessores são Cláudio Alencar, chefe de gabinete de Bastos e Daniel Goldberg, secretário de Direito Econômico. Eles se reuniram secretamente com Palocci e Mattoso na casa do ministro, às 23hs do dia 16, instantes após a violação do sigilo do caseiro e também duas vezes no dia seguinte, mas esconderam o fato da polícia até serem revelados pela imprensa.
Os dois prestaram depoimento sorrateiro em 2 de abril, um domingo, quase três semanas após o episódio, longe da imprensa. Eles disseram que Palocci queria saber da possibilidade de acionar a PF para investigar a suspeita de que o caseiro estava recebendo suborno da oposição para atacar o ministro, o que configuraria crimes de lavagem de dinheiro e ofensa à honra.
Mas Goldberg foi contraditório com relação à real participação de Bastos no episódio da quebra do sigilo. A PF informou que, por dever de ofício, o delegado vai consultar o Ministério Público sobre a necessidade de fazer ou não a convocação formal do ministro.
Em caso positivo, o pedido terá de ser decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ouvido o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, porque Bastos, por ser ministro, tem direito a foro privilegiado. Por meio da assessoria, Bastos disse que nunca recebeu nenhum pedido da PF para depor e que se isso ocorrer, irá sem nenhum problema. Ele disse também que enviou ao delegado Gomes cópia do depoimento que prestou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara sobre sua participação nos fatos.
No depoimento, Bastos justifica porque indicou um advogado para defender o colega Palocci quando sua situação ficou insustentável. Afirma também que seus assessores não cometeram nenhum deslize funcional por terem se reunido com Palocci, que lhes queria fazer uma consulta legítima.

mockup