BRASÍLIA - A CPI dos Títulos Públicos, aberta em novembro do ano passado pelo Senado, trouxe de volta à cena a figura dos doleiros. Durante as investigações, a CPI descobriu empresas fantasmas que mascaravam seus lucros com a compra de dólar no câmbio negro. A lavagem de dinheiro por intermédio dos doleiros, sistema também utilizado em várias outras transações ilícitas, como o narcotráfico, é hoje um dos principais problemas da Polícia Federal (PF), que conhece os métodos utilizados, mas pouco pode fazer para combatê-los.
Os doleiros mudam, mas os métodos de atuação são sempre os mesmos. Todos agem utilizando os ‘‘laranjas’’ - pessoas ou empresas que servem como testas-de-ferro nas negociações ilícitas - o que dificulta a localização dos chefes da venda de dólar no mercado negro. Quem sai do esquema sempre transfere os conhecimentos para o sucessor, que cada vez mais transforma a venda ilegal de dólares em lavagem de dinheiro sujo de negociatas.
O modo de atuar dos doleiros começou a ser melhor conhecido pela PF quando se descobriu o ‘‘Esquema PC’’, há cinco anos. Nas investigações, os agentes e delegados da PF adquiriram conhecimento para identificar quem vende dólar ilegalmente. Mas para chegar até eles é quase impossível, já que a forma de atuação é diversificada.
Segundo um delegado da PF que atuou nas investigações do Esquema PC, o sistema de trabalho dos doleiros é semelhante ao dos bicheiros. Eles se espalham por várias partes do País com pequenas, médias e grandes casas de câmbio. O centro de todos os negócios, conforme a PF, é São Paulo, que mantém contatos também com o Uruguai e Paraguai, países onde se costuma ‘‘lavar’’ o chamado ‘‘dinheiro grande’’. A maioria dos doleiros trabalha com dinheiro vivo e não com cheques, impedindo o rastreamento.
Quem sempre fica à frente dos negócios são os chamados ‘‘laranjas’’, pessoas contratadas para servir de fachada e esconder os chefes das negociatas. Quando um ‘‘laranja’’, que também pode ser uma empresa ‘‘fantasma’’, é descoberto, surgem outros, que não deixam de usar o mesmo sistema de trabalho. Quando há operações envolvendo cheques, surge a figura dos ‘‘maleiros’’, como são conhecidas no mercado negro do dólar as pessoas que trabalham no transportes de valores. Normalmente eles retiram o dinheiro na boca do caixa dos bancos e pouco sabem sobre a atividade de seus patrões.
A própria Polícia Federal admite que é complicado autuar um doleiro. Os grandes, por exemplo, nunca possuem um só local de trabalho. ‘‘Normalmente eles utilizam uma sala onde fazem os negócios, mas o cofre onde está a moeda americana e onde estão os papéis das negociatas, ficam sempre em locais diferentes’’, conta o delegado da PF. As batidas policiais feitas na sala principal, que na linguagem policial é identificada como ‘‘aparelho’’ - uma alusão aos antigos esconderijos dos militantes da esquerda durante o regime militar - quase sempre não surtem efeito.
De acordo com a Polícia Federal, se o Congresso já tivesse aprovado o projeto que criminaliza a lavagem de dinheiro e ocultação de bens, haveria mais facilidade para se chegar ao mercado negro do dólar. O projeto, proposto pelo governo, cria o Conselho de Controle de Atividades Financeiras e, entre as diversas penalidades previstas, está o sequestro de bens de quem pratica a lavagem de dinheiro.

mockup