São Paulo - Os peritos criminais da Polícia Federal identificaram mais uma conta que teria sido usada para remessa ilegal de valores – supostamente arrecadados em operações de desvio de verbas públicas – para paraísos fiscais por meio da agência do Banestado de Nova York. Dados dos demonstrativos de ordens de pagamento das 137 contas que tiveram o sigilo quebrado por decisão da Justiça americana revelam que a ‘‘conta Maria Rodrigues’’ – nome como ficou conhecida a operação de remessas ilegais – recebeu US$ 3,6 milhões por meio de outras duas contas que podem ter sido utilizadas em um amplo esquema de lavagem de capitais.
  A Procuradoria da República e a Polícia Federal estimam em US$ 30 bilhões a evasão promovida por contas CC-5 (de não residentes) na região da tríplice fronteira, entre 1996 e 1999. O Banestado foi liquidado pelo Banco Central em 2000. Os peritos federais constataram que a ‘‘conta Maria Rodrigues’’ foi abastecida por oito remessas, ocorridas entre 18 de julho e 1ºde outubro de 1996. O rastreamento mostra que o dinheiro saiu de duas contas do Banestado, passou pelo Chase Manhattan de Nova York (atual J.P Morgan-Chase) e foi parar na conta do Union Bancaire Privèe, de Genebra (Suíça).
  Desvios - ‘‘Essa conta foi uma das três citadas em depoimento como tendo sido usada para receber dinheiro da Avenida Água Espraiada’’, disse o promotor José Carlos Guillem Blat, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), órgão do Ministério Público Estadual.
  O depoimento citado pelo promotor é o de Simeão Damasceno de Oliveira. Ex-gerente financeiro da Construtora Mendes Jr., Simeão afirmou que supostos desvios de dinheiro da obra da Água Espraiada, na zona sul da capital, teriam alimentado um esquema de corrupção envolvendo empresas de fachada e subempreiteiras contratadas exclusivamente para emissão de notas fiscais frias. Segundo ele, três contas foram usadas pelo esquema: a ‘‘Maria Rodrigues’’, a ‘‘Campari’’ e a ‘‘Lespan’’.
  A existência das contas foi comprovada durante a investigação do caso Banestado. Além dos US$ 3,6 milhões da ‘‘Maria Rodrigues’’, a ‘‘Campari’’ movimentou US$ 58 milhões. Na conta ‘‘Lespan’ transitaram US$ 162 milhões.
  A maior remessa para a ‘‘Maria Rodrigues’’ ocorreu em 29 de setembro de 1996, no valor de US$ 1,1 milhão. A operação foi feita por meio da conta 641-1, cujos cartões de autógrafo mantidos pelo Banestado indicam dois doleiros como seus titulares ou procuradores. O laudo financeiro demonstrou que essa conta bancária movimentou US$ 53,4 milhões, de abril de 1996 a dezembro de 1997. Na conta em nome dos doleiros foram feitas seis remessas.
  Um dos doleiros aparece como representante ou procurador de uma empresa offshore com sede nas Ilhas Virgens Britânicas. A offshore é titular de outra conta no Banestado. Por meio dessa conta foram feitas duas transferências para a ‘‘Maria Rodrigues’’, em setembro e outubro de 1996, que somam US$ 1,1 milhão. Desde agosto de 1996 - data de sua abertura - até dezembro de 1997, a conta movimentou US$ 659 milhões.

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