Leandro Donatti
De Curitiba
A investigação sobre as operações de um doleiro de Curitiba desencadeada pela Polícia Federal do Rio Grande do Norte levou à apreensão de documentos que envolvem a mulher do senador Roberto Requião (PMDB-PR), Maristela Requião. Nos apontamentos encontrados com o doleiro que caiu na malha-fina, Maristela Requião aparece como compradora de dólares na conversão de R$ 250 mil. A anotação levou a Polícia Federal a convocar Maristela Requião para depoimentos. A origem do dinheiro, conforme garantiu o senador Roberto Requião ontem, foi a venda de um apartamento em São Paulo, herança da família de Maristela.
Uma carta precatória endereçada à Polícia Federal do Paraná pediu, na semana passada, a tomada de depoimento da mulher de Requião, que está em viagem à França. A Polícia Federal do Rio Grande do Norte faz uma série questionamentos, mantidos sob sigilo. O advogado da família Quarenzi, de Maristela, comprovou que o domicílio dela é em Brasília, o que deslocou a precatória para a Polícia Federal, no Distrito Federal.
A rigor, adquirir moeda estrangeira é proibido por lei no Brasil, mas há quase uma liberalidade branca nessa área. O setor de compra e venda de dólares do Banco Central, em Curitiba, informou à reportagem ontem que a transformação de real em dólar, pura e simplesmente como foi o caso, é uma contravenção e pode render responsabilização criminal do doleiro e de quem comprar os dólares. A operação é permitida somente em casos de viagens ou remessa de valores para o exterior, desde que comunicadas às autoridades controladoras competentes, no caso, Receita Federal e Banco Central.
O senador Requião contesta a legislação e diz que quem cometeu irregularidade e está sob o alvo da Polícia Federal é o doleiro e não a mulher. Requião disse ontem, por telefone, não lembrar o nome da casa de câmbio, onde a mulher transformou os R$ 250 mil em dólares, nem o do doleiro. ‘‘É livre o câmbio no País. Não tem nada de mais comprar dólares. Você, se quiser, pode transformar o seu salário em dólar’’, garantiu o senador. Requião disse que a origem do dinheiro é legal, ‘‘está inclusive declarada no Imposto de Renda’’, e quem agiu com má-fé foi o doleiro.
Requião explicou que a idéia de conversão do dinheiro em dólares foi da família de Maristela. A mulher do senador cuida do inventário do pai que já morreu. A venda do apartamento rendeu a Maristela R$ 100 mil dos R$ 250 mil obtidos na negociação. ‘‘Decidimos comprar os dólares. A transação é legal e não teve nada de irregular. Foi pago ao doleiro com um cheque administrativo’’, relatou o senador. Requião informou ainda que já respondeu os questionamentos feitos pela PF do Rio Grande do Norte, onde o cheque administrativo teria sido obtido, à PF de Brasília.
Caso recente de conversão de dólares envolveu o ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes. O que o Senado buscou apurar na CPI dos Bancos – e depois andou fazendo vistas grossas – foi a origem dos cerca de US$ 1,5 milhões depositados em conta de Lopes no exterior. No caso da mulher de Requião, o que pode ser questionado é a legalidade da transação com o doleiro. Juristas consultados pela Folha ontem disseram que, apesar de ser uma questão quase que cultural comprar moeda estrangeira para não perder dinheiro, Maristela pode vir a ser acionada judicialmente, caso a Polícia Federal ou Ministério Público assim entendam.Compra de dólares não contabilizada por doleiro acabou na malha-fina da Receita e Polícia mandou precatória para ouvir Maristela
Arquivo FolhaTUDO CERTORequião: ‘‘Transação é legal e não tem nada de irregular’’ e origem do dinheiro está ‘‘declarada no Imposto de Renda’’

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