Curitiba - Mesmo observando que o "cerco está se fechando", principalmente com a colaboração espontânea de alguns réus que estão prestando depoimentos na Polícia Federal (PF), Alberto Youssef, principal personagem da Operação Lava Jato que investiga um esquema de lavagem de dinheiro de cerca de R$ 10 bilhões, usou do direito de permanecer calado em seu primeiro interrogatório, realizado ontem de manhã, na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba. Além disso, conforme sua defesa, o doleiro também ainda não pensa em tentar fechar qualquer acordo com o Ministério Público Federal (MPF).
A estratégia é permanecer em silêncio porque se entende que no processo ainda cabe questionamento de mérito. O advogado Antonio Figueiredo Basto informou que já foram impetrados ao menos seis habeas corpus no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) e outro no Superior Tribunal de Justiça (STJ), questionando a competência da Justiça do Paraná em julgar as ações da Lava Jato. "Estamos tentando reverter a situação. Reconheço que estamos numa posição de desvantagem. Youssef já tem contra ele três ou quatro depoimentos. Não é só o Carlos Alberto, é o Leonardo (Meirelles), a Meire (Poza), o Paulo Roberto (Costa), e isso dificulta a nossa movimentação. Mas acredito que ainda temos chance de reverter a situação, estamos questionando a competência do juiz e não vamos nos entregar com facilidade", ressaltou.
Para Basto, a hipótese de acordo continua descartada porque, em sua visão, apesar de uma possível demora, a defesa teria boas oportunidades de reverter o processo. Além da audiência de ontem, Youssef ainda será interrogado em outras quatro ações penais da Lava Jato. "Um acordo é uma questão que meu cliente define, não sou eu. Se por acaso ele mudar de opinião, a estratégia muda, isso pode mudar eventualmente diante das várias colaborações que estão surgindo. Vejo que, por enquanto, não há possibilidade de colaboração, mas não condeno quem faz, é uma estratégia de defesa, legal, cada um combate com a arma que tem", afirmou.
Se o londrinense permaneceu quieto durante o interrogatório de ontem, Carlos Alberto Pereira da Costa, advogado e procurador da GDF Investimentos, empresa de propriedade de Youssef, e que está colaborando com as investigações, falou por cerca de uma hora durante o interrogatório. "Ele confirmou que era procurador da GFD mas que não tinha nenhuma ligação com a Labogen. Ele já está preso há quase seis meses e resolveu colaborar com a Justiça, até porque não concordava com o que estava acontecendo (na empresa) de longa data. Está prestando diversos depoimentos na PF e esperamos que sejam considerados pela Justiça numa eventual redução de pena e possível liberdade", disse o advogado de Pereira da Costa, Rodrigo Castor de Mattos.
Youssef e Pereira da Costa, que seguem presos na carceragem da PF na capital, compareceram na audiência referente à ação penal que investiga a evasão fraudulenta de US$ 444,6 milhões mediante contratos de câmbio para pagamentos de importações fictícias, utilizando empresas de fachada ou em nome de pessoas interpostas. Na quinta-feira, os demais réus citados nesta ação também foram interrogados (Leonardo Meirelles, Leandro Meirelles, Esdra de Arantes Ferreira, Pedro Argese Júnior e Raphael Flores Rodriguez), mas apenas Leonardo e Raphael prestaram esclarecimentos, os demais permaneceram calados.

DOCUMENTOS
Além de Pereira da Costa, Leonardo Meirelles está colaborando com as investigações e, durante seu interrogatório, teria afirmado possuir documentos que dizem respeito a Youssef. "O Leonardo falou e assumiu a responsabilidade pelos atos que praticou. Agora estamos tomando as providências necessárias para tentar minimizar os efeitos de uma eventual sentença condenatória", afirmou o advogado de Meirelles, Haroldo Cesar Nater.
Após o interrogatório de Leonardo, o juiz Sérgio Moro determinou o prazo de cinco dias para que o réu junte todos os documentos referentes ao doleiro e os apresente perante a Justiça. Basto, por outro lado, questiona a autenticidade destas provas. "Continuamos na mesma tese, que até agora não há prova efetiva no processo. Além disso, não vi elementos de credibilidade no depoimento do Leonardo. Ele alega que o Alberto era dono da Labogen e do câmbio, mas vai ter que trazer a prova, somente a palavra não vale nada", disse.

EX-DIRETOR DA PETROBRAS
Apesar das especulações das últimas semanas, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, réu em duas ações penais da Lava Jato, ainda não fechou, oficialmente, nenhum acordo de delação premiada com o MPF. Entretanto, conforme apurou a reportagem da FOLHA, o ex-diretor da estatal estaria prestando alguns depoimentos na PF nos últimos dias, acompanhado de sua advogada, afim de colaborar com as investigações. A possibilidade de ocorrer uma delação premiada, entretanto, ainda precisaria ser analisada pelos procuradores.

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