Brasília- Parlamentares e sindicalistas que apóiam governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentiram a ira dos funcionários públicos. A manifestação contra a reforma da Previdência promovida ontem pelos servidores, na Esplanada dos Ministérios, registrou cenas nunca vistas. Os líderes do PT, Nelson Pellegrino (BA), e do PC do B na Câmara, Inácio Arruda (CE), e o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, foram vaiados, xingados de ''pelegos, mentirosos, safados, traidores e entreguistas'' e sofreram bombardeio de garrafas de água e latas de cerveja.
A manifestação reuniu algo entre 15 mil manifestantes, segundo a Polícia Militar, e 30 mil, de acordo com os organizadores. Percorreu cerca de dois quilômetros, da Catedral de Brasília até o gramado do Congresso, passando em frente ao Palácio do Planalto. Lula despachava naquele momento no Palácio da Alvorada e não viu o primeiro grande protesto contra o governo.
Pellegrino, que pertence a uma das alas mais radicais do PT, a Força Socialista, foi o mais agredido. Tentou, com muita dificuldade, fazer um discurso, de cima do caminhão de som, no momento em que a passeata chegava ao Ministério da Previdência Social e os manifestantes gritavam contra o ministro Ricardo Berzoini: ''Ô, Berzoini, presta atenção, essa reforma é da privatização.'' Sob vaias, o líder do PT na Câmara pegou o microfone. ''Sou da base de sustentação do governo do presidente Lula. Mas estou trabalhando para mudar o projeto da Previdência'', disse. Em resposta, ouviu as manifestações de desagrado aumentarem. ''Quero melhorar o projeto!'', insistiu.
Foi vaiado de novo, ainda mais forte. Como era impossível diferenciar a voz de Pellegrino da gritaria de protestos, ele despediu-se e desceu do caminhão.
Nos 500 metros de onde tentara falar até o cordão policial que protegia o prédio do Congresso, Pellegrino passou pelos piores momentos.
Continuou sendo hostilizado, atiraram-lhe latinhas, cuspiram na direção dele. Estava acompanhado apenas do vice-líder Henrique Fontana (PT-RS), uma vez que os outros oito parlamentares petistas que também anunciaram a presença na manifestação tinham ficado para trás. Um deles, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), também foi agredido verbalmente.
''Pelego! Pelego!'', berrava, com o dedo apontado para o rosto de Chinaglia, uma funcionária da Universidade de São Paulo (USP) identificada apenas como Neli.
''Há 18 anos, sou advogado de servidores públicos. Tenho minhas convicções. As manifestações são democráticas e livres'', disse Pellegrino, ao retornar ao Legislativo. Antes, o líder do PT tentara dizer aos que ainda o atacavam, que os deputados do partido acompanhariam os servidores nas reivindicações.

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