Brasília - A pressão crescente sobre o Palácio do Planalto contra os rumos das reformas constitucionais e da política econômica começa a delinear um rearranjo no PT que pode ter consequências decisivas no quadro partidário. Os petistas alinhados com o governo tendem a se unir e se inclinar mais para o centro, isolando à esquerda os parlamentares radicais cujo discurso parece mais afinado com legendas como o PDT e o PSTU.
Na mesma semana em que os servidores ocuparam a Esplanada dos Ministérios para protestar, vaiar e xingar parlamentares petistas e de outros partidos favoráveis às mudanças, duas das correntes mais importantes do PT se reuniram para acertar uma atuação comum: a Unidade na Luta - do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e do presidente do partido, José Genoino - e o Movimento PT - dos deputados Arlindo Chinaglia (SP) e Virgílio Guimarães (MG), e do ministro do Desenvolvimento Econômico e Social, Tarso Genro.
''Claro que ainda há diferenças, mas agora que somos governo temos toda condição de resolver esses problemas'', diz o deputado Paulo Bernardo (PR), da Unidade na Luta. Em breve, afirma, haverá um encontro com as outras correntes, como a Articulação de Esquerda, dos deputados Luciano Zica (SP) e Luci Choinacki (SC), e a Democracia Socialista, do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e dos deputados Walter Pinheiro (BA) e Tarcísio Zimmermann (RS).
A intenção é mapear o maior número de pontos de convergência tanto para o funcionamento do governo quanto para as eleições municipais do ano que vem. As críticas de intelectuais e economistas historicamente ligados ao PT e o ruidoso protesto dos servidores deixaram claro para os petistas: a ambiguidade em relação às reformas e ao governo pode ter graves consequências eleitorais.
''Não podemos botar a perna em dois lugares'', diz Genoino. ''Sei que teremos conflitos com os servidores públicos enquanto durar a tramitação da reforma da Previdência.'' Mas ele acha que isso não é problema: ''Desde 1988, não houve uma prefeitura do PT, em qualquer lugar do Brasil, que não tivesse conflito com os servidores.'' Genoino, que na noite de quarta-feira reuniu 25 dos 27 ministros e secretários especiais do PT para pedir mais empenho pelas reformas e na defesa do governo, ensina: ''Vamos respeitar as manifestações dos servidores. Também vamos dialogar com os economistas ligados ao PT que divulgaram um manifesto contrário à política econômica. Nosso dever é mostrar para eles que em muitas coisas não têm razão.''
O PT avalia que o primeiro teste de aceitação do governo Lula serão as eleições municipais. ''Percebo que a maioria dos sindicatos nos Estados é a favor das reformas e vai acompanhar o governo, mostrando que mantém a ligação com o PT. Não acho que teremos qualquer problema nas eleições por causa das reformas'', prevê Paulo Bernardo.
A manifestação de quarta-feira, segundo ele, foi ''ruidosa, com boa repercussão, mas não mostrou aglutinação''. Pelo contrário, evidenciou que o movimento de oposição interna responsável pelo ''fogo amigo'' caminha para o isolamento, enquanto o governo se articula e atrai mais apoios.

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