Pesquisador francês defende que o eleitor seja melhor analisado
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 1997
Patrícia Zanin Londrina 
Josoé de Carvalho/Folha de LondrinaNova visãoJean Mouchon: pesquisadores preocupados com o processo de formação da opiniãoO pesquisador francês Jean Mouchon, que esteve na Universidade Estadual de Londrina na semana passada para ministrar o seminário A comunicação política e os atores sociais, trouxe uma nova contribuição para a reflexão: a política e a sociologia estão se dedicando a uma recente linha de pesquisa - o estudo do papel do receptor/eleitor.
Os institutos de pesquisa de opinião podem até refletir o comportamento, mas não o processo pelo qual o receptor forma sua opinião. E os intelectuais estão justamente preocupados com o processo. Ele exemplifica que os pesquisadores estão atentos a detalhes como a significação das palavras, a forma do eleitor receber e analisar uma mensagem.
Qualitativamente falando, nós analisamos precisamente como um determinado grupo social elabora sua resposta. Se o político fala em construção européia, um funcionário comum pensará em sua própria vida, na previdência social. Ao contrário, o diretor de uma empresa raciocinará em termos de mercado e na possibilidade de desenvolvimento, de riqueza.
Ele explica que a análise das diferentes classes sociais, que ele prefere chamar de atores sociais, seguindo conceito do sociólogo francês Pierre Bordieu, pode levar a uma compreensão mais ampla do processo eleitoral e democrático. Segundo ele, os atores sociais produzem ações e, por isso, o pesquisador se recusa a falar em manipulação. Todo mundo é inteligente, mesmo se não tiver muita cultura. É inteligente porque vive e tem interesses que o levam a ser hábil. Mesmo os mais pobres, garante.
O pesquisador não quis comentar a situação brasileira, onde políticos trocam cadeiras de roda, dentaduras e cestas de alimentos por voto, mas diz acreditar no processo de conquista de cidadania, mesmo em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Ele diz que uma estratégia que tem funcionado bem na França é a reunião, nos bairros, para discussão de problemas comuns para cobranças conjuntas.
Para analisar os impactos do discurso para o receptor, Jean Mouchon não trabalha apenas com o eleitor, mas também com os jornalistas. Há 15 anos, ele criou um grupo de estudos que reúne pesquisadores e intelectuais que avaliam o processo não só na área política, mas também refletem sobre a divulgação, na imprensa, de descobertas e avanços científicos, médicos e tecnológicos.
Ele é diretor do Centro de Pesquisa PRIAM - Produção e Pesquisa sobre Imagem, Audio-Visual e Mídias da Ecole Normale Supérieure, formadora dos quados políticos e da inteligência da França. Mouchon também é professor do Programa de Doutorado em Comunicação da Universidade de Paris, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França e presidente de honra da Sociedade Francesa de Ciências da Informação e Comunicação.


