Embora negasse possíveis erros do Ibope em suas pesquisas no primeiro turno das eleições deste ano, o diretor-executivo do instituto, Carlos Augusto Montenegro, disse ontem no Rio que a empresa fará mudanças nas consultas relativas ao segundo turno. Segundo ele, é possível que a última pesquisa antes do pleito seja realizada nos dois anteriores à eleição e não em quatro, como vinha sendo feito.
A iniciativa incluirá outras modificações no Distrito Federal, onde ocorreu o único erro oficialmente admitido pelo Ibope: a previsão de que Joaquim Roriz venceria o primeiro turno, o que não ocorreu. ‘‘Se o domingo foi negro para as pesquisas (conforme afirmara o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ilmar Galvão), hoje é uma quinta-feira ensolarada para nós, pesquisadores’’, disse Montenegro.
Montenegro convocou entrevista para distribuir números comparativos dos resultados das urnas e das pesquisas do Ibope que, segundo ele, mostram que o instituto acertou a grande maioria das sondagens de boca de urna (feitas depois que o cidadão já votou) com desvios, em sua maior parte, na margens de erro.
Para ele, houve má-fé nas críticas feitas aos institutos ‘‘com números de apenas 5% das urnas eletrônicas’’. Montenegro disse que o PT tomou atitude ‘‘pessoal e covarde’’ ao anunciar que vai processar o Ibope por supostos erros em São Paulo. Ali, afirmou, o instituto, em sua sondagem de boca de urna, mostrou um empate no segundo lugar entre Mário Covas (PSDB) e Marta Suplicy (PT), enquanto outras empresas davam vantagem para o tucano. ‘‘Querem processar o Ibope porque é o mais fraco’’, disse.
Mesmo assim, considerou que a ação do PT na Justiça é normal no regime democrático. Ele disse ter ‘‘grande admiração’’ por Marta. ‘‘O Ibope vai se defender com base na Lei 9.504, apresentando questionários, metodologia, amostragens, e mostrará que quem prejudicou o PT foram os eleitores’’, disse. ‘‘O Ibope tem 56 anos de existência e nunca viu um candidato dizer: perdi por minha culpa.’’
Montenegro revelou que o Ibope já foi procurado, em São Paulo, por representantes do PT, que tiveram acesso a parte dos dados das pesquisas do instituto. ‘‘Por que digo que as acusações foram de má-fé? Porque o PT é um dos partidos mais organizados, tem um centro de informações com dados de todas as pesquisas, tem gente preparada.’’
Montenegro afirmou que, até 48 horas antes das eleições, Marta, de acordo com todos os institutos, estava em quarto lugar. ‘‘Esse negócio de dizer que ela andava nas ruas e sentia... Ela não consegue contar os eleitores’’, afirmou. ‘‘Tinha 5%, 6% de indecisos, e as eleições em São Paulo esquentaram na última semana, com o debate da TV Cultura, a que Francisco Rossi (PDT) não foi, Marta foi muito bem, e o seu último programa no horário gratuito, namorando o senador Eduardo Suplicy, foi muito bom.’’ Mesmo assim, na quinta e sexta feiras, Marta aparecia com 15 pontos, contra 13 na terça e quarta. Na média, a petista ficou com 14, de acordo com o diretor do Ibope.
O instituto, segundo Montenegro, ainda está tentando descobrir o que aconteceu no Distrito Federal onde, ao contrário do que apontara a pesquisa de boca de urna, o governador Cristóvam Buarque chegou em primeiro lugar. ‘‘Ainda estamos investigando, para fazer correções no segundo turno’’, afirmou o diretor-executivo, que admitiu ter errado ‘‘politicamente’’ em Brasília (por não acertar o vencedor), embora não estatisticamente (o erro foi dentro da margem).
O diretor-superintendente do Ibope, Luís Paulo Montenegro, declarou que na capital federal há um descompasso entre população e eleitorado inscrito, o que pode ter gerado uma distorção. Podem ter acontecido também abstenção maior nas partes mais novas de Brasília, onde Roriz vencia, ou até erros dos seus eleitores, de menor escolaridade, ao usar a urna eletrônica.
Carlos Augusto Montenegro admitiu que as pesquisas eleitorais no Brasil acabaram tendo maior importância do que deveriam, devido a problemas como a campanha fria, o sistema político ‘‘falido’’ e a falta de debates. ‘‘Praticamente não tem eleição, você tem a pesquisa’’, disse ‘‘É uma maçaroca de gráficos e números o tempo todo. A pesquisa tem importância, mas deveria ter uma importância relativa, para ir medindo os fatos políticos. É horrível você ter que medir coisa nenhuma o ano todo, porque não teve fato político o ano todo.’’

mockup