Pesquisa indica que eleitor exige mais
Nova postura do eleitor que cobra capacidade de realização e cumprimento de compromissos beneficia quem está no poder
Agência Estado

Arquivo Folha
Única novidadeMarta Suplicy: uma das grandes novidades no processo eleitoralO eleitor brasileiro continua não acreditando nos políticos em geral e está cada vez mais preocupado com a capacidade de realização dos seus eleitos. Pesquisa qualitativa realizada pela Lowe Loducca constata que o ‘‘político realizador’’ continua sendo o sonho de consumo do brasileiro que irá às urnas em outubro próximo. Um eleitor para quem os conceitos de continuidade, rapidez e bom uso do dinheiro público tornaram-se o fiel na balança que pesa os atributos do melhor candidato.
Realizado nos últimos meses em cinco praças diferentes, o levantamento demonstrou que a média do eleitorado brasileiro, embora desiludida com a classe política, presta mais atenção na relação entre compromissos de campanha e as melhorias efetivas para a população. Esses resultados confirmam tendência de mudança no comportamento do eleitorado brasileiro observada pelos especialistas em marketing político desde as últimas eleições, há dois anos, e sustenta o palpite daqueles que estão acompanhando de perto a sucessão deste ano: no cenário da reeleição, essa nova postura do eleitor beneficia o candidato que tenha feito mais, exatamente aqueles que estão no poder.
‘‘A população está preocupada em melhorar suas condições de vida e não perder o que tenha sido conquistado’’, analisa Rita Almeida, diretora de planejamento e pesquisa da Lowe Loducca. Responsável pela pesquisa, ela afirma que, nem mesmo as eventuais ressalvas a qualquer um dos chefes de poder são suficientes para arriscar o voto de quem busca preservar conquistas. Isso porque, segundo a pesquisa, para a maioria do eleitorado a troca de comando significa ao menos dois anos perdidos com a ‘‘arrumação da casa e imposição de um estilo pessoal’’, o que significa tempo e dinheiro gastos sem benefício direto para a população. ‘‘Quem está no comando já percorreu este caminho e acaba se tornando uma escolha menos arriscada’’.
Mudança Para o publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha de Paulo Maluf ao governo de São Paulo, o eleitor brasileiro tornou-se muito mais pragmático. ‘‘Não existe mais o político real, mas aquele que erra menos’’, comentou. Para ele, esta mudança de comportamento, contudo, ainda não é definitiva, mas um reflexo dos últimos acontecimentos políticos desde a queda da ditadura militar.
‘‘A ideologia caiu para segundo plano e o voto vem se tornando mais conservador’’, comentou. Isso, explica, é mais um fruto do exercício da democracia e da liberdade de escolha, que começou com a eleição de Tancredo Neves, passou pelo impeachment de Fernando Collor de Melo e culminou em Fernando Henrique Cardoso com seu plano real. ‘‘O eleitor vai apostar no conhecido ou naqueles que tenham mais condições’’, ressaltou Mendonça, referindo-se ao pleito deste ano. ‘‘Teremos uma eleição curta e sem renovação. A única novidade é a Marta Suplicy’’.
Segundo Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa Vox Populi, eleger um chefe de estado tornou-se atividade de alto risco. ‘‘O eleitor tem cada vez mais claro que escolhas mal feitas terão um preço a ser pago por ele mesmo’’, comentou. ‘‘Para ele, a troca de comando gera desperdício de tempo e dinheiro’’.
Na opinião desses marketeiros, a mudança de comportamento do eleitor deve ser entendida muito mais como uma evolução. Para eles, a busca de continuidade e rapidez em nenhum momento quis dizer que a cesta de qualidades procurada pelo brasileiro mediano mudou: moralidade, credibilidade, empenho e um bom programa de governo permanecem no escopo de avaliação. ‘‘É preciso pensar em termos de comparatividade’’, explica Coimbra. ‘‘Só realizações não fazem um vencedor’’, acrescentou. ‘‘Trabalho mais credibilidade fazem um candidato imbatível’’, concordou Duda Mendonça.
Sem escolha Mas o jogo com cartas marcadas esperado em 1998 também passa pelo processo de desgaste das oposições. Na avaliação desses especialistas, a situação permanece em vantagem comparativa ajudada também por seus adversários, que preferem brigar entre si, a elaborar alternativas interessantes e que convençam o eleitor. ‘‘O brasileiro se sente forçado a escolher FHC’’, observa Marcos Coimbra, para quem as eleições de outubro serão marcadas por um profundo conformismo.

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