Pesquisa avalia comportamento do eleitor
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de abril de 2006
Cristiane Oya<br> Reportagem Local 
''Corrupção na Política: Eleitor Vítima ou Cúmplice.'' Este é o tema da pesquisa realizada pelo Ibope Opinião, sobre o comportamento da sociedade brasileira em relação à ética na política. O levantamento feito em janeiro, em 143 cidades da federação, apontou a avaliação do brasileiro sobre as condutas dos políticos e sobre as suas atitudes se estivessem no poder.
O estudo mostrou algumas controvérsias na opinião do eleitor brasileiro sobre corrupção e ética na política. Enquanto 97% dos 2001 entrevistados se consideram honestos, 75% admitem que acreditam que cometeriam pelo menos um dos 13 atos de corrupção avaliados na pesquisa, e 69% dos eleitores já transgrediram alguma lei ou descumpriram alguma regra contratual, para obter benefícios materiais, de forma consciente e intencional. Ao mesmo tempo, 82% dos políticos foram considerados desonestos.
Outro ponto que chama a atenção é o percentual de entrevistados que afirmaram que no poder se utilizariam do dinheiro público para pagar despesas pessoais. No Sul do país, dos 308 entrevistados 12% disseram que sempre ou algumas vezes. Em todo país, esse percentual sobe para 16%.
''A pesquisa vem confirmar a tese de que o fenômeno da corrupção é o produto de relações que mesclam interesses públicos e privados, que nasceram no Império, se alojaram na República, atravessaram o Estado Populista, se agigantaram no regime militar e permaneceram na fase de reabertura democrática que já elegeu três presidentes (Collor, FHC e Lula)'', avaliou o professor de sociologia da Unifil e PUC de Londrina, Cézar Bueno. ''Diante desse quadro, como pensar a possibilidade efetiva de se construir um Estado não corrupto e transparente no seio de uma sociedade que tolera e, até mesmo está disposta a fomentar relações que sabidamente atenta contra os interesses e os imperativos da ordem coletiva? Penso que o Brasil, a não ser de modo superficial, ainda não conheceu a democracia'', afirmou.
Para Bueno ''o princípio da corrupção endêmica'' instalada no país, se estabeleceu no predomínio das relações de caráter pessoal fundamentado no patrimonialismo como princípio originário de formação do Estado brasileiro. ''Se, do ponto de vista econômico e social (conforme destacam autores como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro) o Brasil se aproximou de forma muito mais acentuada, de um tipo de relação caracterizada por uma grande comunidade doméstica, no plano político, o resultado foi a completa indiferenciação entre o interesse público e o interesse privado, entre o particular e o geral. Essa mentalidade senhorial brasileira constituiu um obstáculo para a criação das bases da democracia no país. O patriarcalismo rural se encontra de tal modo infiltrado nas raízes do sistema político brasileiro que, até hoje, observam-se dificuldades em afastar os princípios da vida doméstica enquanto elementos políticos definidores.''
Bueno avalia que a indefinição entre o público e o privado mostrada na pesquisa é um obstáculo para a democracia. ''A invasão do público pelo privado, do Estado pela família e a extensão desses princípios a todos os setores da vida social, constitui ainda em nossos dias um dos principais obstáculos para a consecução de uma sociedade democrática e de um Estado transparente na gestão dos recursos públicos'', concluiu.


