Brasíliaá - A Polícia Federal entregou ontem ao Supremo Tribunal Federal (STF) cópia do laudo sobre os documentos de defesa do senador Renan Calheiros. O relatório, produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), e entregue terça-feira à noite ao Conselho de Ética do Senado, traz indícios veementes de falsidade ideológica, fraude contábil e crimes financeiros que deverão ser aprofundados em inquérito, aberto no STF há duas semanas a pedido do Ministério Público Federal.
O laudo revela que a documentação relativa ao rebanho é imprestável por que traz incompatibilidades. Há guias de vacinas atestando vacinação em gado só adquirido em data posterior e há guias de transporte de animais não comercializados, ou o contrário: notas fiscais de venda de gado para abate sem as correspondentes guias de transporte, ou em datas divergentes. Há também empresas inidôneas relacionados entre os compradores e até um comprador que nega ter feito qualquer negócio com o senador.
Trata-se do empresário José Leodácio de Souza, para quem Renan emitiu nota fiscal atestando a venda de 45 bois. Ele negou a operação em documento enviado ao INC e anexado aos autos. O caso, se o suposto comprador estiver certo, caracteriza dois crimes conexos: falsidade ideológica e uso de documento falso. Mas para os peritos, as incompatibilidades ficam mais patentes na análise da evolução patrimonial do senador, toda ela calçada em rendas fictícias, provavelmente para esconder ganhos clandestinos obtidos através de laranjas ou de origem espúria.
Em 2002, pela análise da evolução patrimonial, Renan informa ter aplicado 89% de seus ganhos em patrimônio. Ele teria ganho 270,4 mil e aplicado 242,5 mil em patrimônio. Sobrou 27,9 mil - ou 2,3 mil mensais - para ele sustentar a família e manter os gastos pessoais do seu alto padrão de vida, que incluía pagar pensão a Mônica, curtir o gosto refinado por carrões e custear a manutenção das suas mansões urbanas e rurais em Alagoas e Brasília.
Em 2003, sobrou um pouco mais de dinheiro, R$ 8,4 mil mensais, pois Renan só aplicou 74% dos ganhos em patrimônio. Mas em 2005 ele exagerou no aperto do cinto e converteu em patrimônio R$ 25 mil a mais do que a soma de tudo que está declarado como ganho no ano. Um milagre para os peritos, que não conseguiram descobrir, na análise dos documentos, de onde saiu o dinheiro excedente. Não estão computados os gastos com taxas, juros, CPMF, encargos e taxas bancárias, que somaram R$ 55 mil em 2005. Segundo o laudo pericial, nesse ano Renan não tinha dinheiro para pagar a pensão de Mônica Veloso. Para os peritos, ele tinha patrimônio, sim, para suportar a pensão alimentícia da jornalista, mas todo ele estava imobilizado em investimentos.

mockup