Curitiba - Perícia técnica feita por policiais especializados confirmou que o sistema utilizado pelo telebingo Totobola permitia a possibilidade de fraude nos sorteios. Segundo laudo técnico, antes de serem sorteadas as bolas ficavam em um compartimento fechado, onde podiam ser selecionadas previamente de acordo com os números pretendidos para sorteio. Como cada bola tem um código de barras, essa seleção era feita por meio de um software específico para a leitura dos códigos.
''Ao sermos arguidos, como especialistas, se seria possível haver fraude no processo, a afirmação foi positiva, pois a sequência normal de funcionamento mostra que ler código de barras em uma fase anterior à seleção da bola faz com que a lisura do processo seja questionada, pois se tem conhecimento prévio do que irá para o prato de seleção'', diz o laudo assinado pelo analista de informática Mauro Valle.
Outra irregularidade constatada pelo delegado Sérgio Cirino, do Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), responsável pelas investigações das suspeitas de fraudes no sistema, é o fato de que os sorteios não aconteciam em tempo real. Eles eram gravados em média cinco horas antes de ir ao ar. Neste tempo, as cartelas continuavam à venda. Como a Kolmac, empresa responsável pelo Totobola, tinha meios de localizar em que casa lotérica do Paraná estavam as cartelas premiadas, ela poderia manipular os resultados, seja comprando as cartelas premiadas, ou, ainda, recolhendo-as, com objetivo de fazer o prêmio acumular. Com prêmios mais altos, ela venderia mais cartelas.
Depoimentos ouvidos até agora também mostram que o Totobola era controlado quase que exclusivamente pela Kolmac, empresa responsável pelos sorteios do telebingo, com quase nenhuma intervenção do Serlopar, órgão do Estado que deveria fiscalizar os jogos. Com isso, não havia controle sobre o número de cartelas impressas ou vendidas, por exemplo.
O Totobola está suspenso desde o dia 19, quando uma equipe do Nurce lacrou o sistema de software e a bingueira (máquina para extração das bolas premiadas), após presenciar o sorteio de número 90 do telebingo e constatar indícios de irregularidade. O delegado aguarda, agora, decisão judicial da Central de Inquéritos para seu pedido de busca e apreensão de todo maquinário para realizar uma perícia mais aprofundada.
O depoimento do proprietário da Kolmac, o argentino Mário Alberto Chaves, estava previsto para ontem, mas ele não compareceu, alegando impossibilidade de viajar do Rio Grande do Sul, onde mora, em tempo. O delegado remarcou seu depoimento para amanhã, às 9h30. O Nurce já ouviu cinco dos 12 depoimentos previstos, entre funcionários do Totobola e da empresa responsável por realizar auditorias no sistema, a Audiacto Auditores Independentes. A polícia também já está com a lista dos ganhadores, que também devem ser ouvidos.
A denúncia de fraudes no Totobola foi feita ao Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul por um dos ex-sócios da loteria, o argentino Carlos Rodolfo Zicavo. Em seu depoimento, Zicavo acusa Charles de ter retido até R$ 2 milhões que deveriam ser destinados para premiação desde 1997, quando o Totobola se instalou no Brasil. No Paraná, ele existe há um ano e meio. Zicavo também diz ter documentos que comprovam uma sonegação fiscal de até R$ 6,5 milhões decorrentes da falta de fiscalização das autoridades brasileiras sobre a empresa.
Pelo contrato assinado entre a Kolmac e Serlopar, 40% do valor das cartelas vendidas deveriam ser destinados para premiação; 2,1% para a Serlopar; 4,9% para o Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp); 10% para as casas lotéricas; 10% em publicidade e 33% para o próprio Toto Bola. Segundo o presidente do Serlopar, Mário Lobo, a média de arrecadação mensal do Totobola no Estado era de R$ 2 milhões.

mockup