Melhorar o rendimento escolar dos alunos e elevar os indicadores do Estado usados para medir a qualidade do ensino são os principais objetivos da secretária de Estado da Educação, a brasiliense Alcyone Saliba, de 41 anos. Consciente do desafio que assumiu - ela admite que essa é uma Secretaria complexa - Alcyone Saliba acredita que sua experiência como gerente de projetos do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) vai ajudá-la em sua nova função. Depois dos oito anos e meio em que trabalhou no Banco Mundial, garante que conquistou a prática de administradora habituada a grandes orçamentos e adquiriu ‘‘um jogo-de-cintura político forte’’. Com vários projetos ‘‘de vanguarda’’ pela frente e diante da escassez de dinheiro enfrentada pelos Estados, a secretária pretende colocá-los em prática buscando recursos a fundo perdido. Para engordar o orçamento de R$ 1,136 bilhão da Educação para 99, ela pretende se valer do trânsito adquirido junto a instituições financeiras nacionais e internacionais. Nas questões polêmicas como a definição do plano de carreira dos professores, Alcyone Saliba aposta contar ‘‘sempre com muito diálogo’’ e discussão ampliada com a comunidade. Em entrevista à Folha, a secretária resumiu seu plano para a área.
ação vem de uma experiência de oito anos e meio no Banco Mundial
A crise é
um momento
para usarmos
nosso talento
Andrea Vendramini
Folha - Como a senhora avalia a situação da Educação no Paraná?
Alcyone Saliba - A situação é muito boa e o Estado ocupa uma posição privilegiada. Nós estamos bem, mas queremos estar melhor. Um dos principais indicadores é o Sistema Nacional de Avaliação da Escolarização Básica (Saeb), que mede o desempenho dos alunos. Apesar de todos os Estados estarem abaixo do gabarito mínimo, o Paraná está muito bem colocado, com o melhor ensino fundamental do País. Os três primeiros lugares, em português, matemática e ciências, são do Paraná.
Folha - Quais são as prioridades de sua gestão?
Alcyone - Nós temos duas diretrizes básicas: continuidade com ajustes finos e programas de vanguarda, todos com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino, aumentando a quantidade de aprendizagem e a porcentagem de conclusão. O importante é o aluno aprender.
Folha - Como é possível cumprir essa tarefa?
Alcyone - É preciso viabilizar a autonomia da escola. Sem uma gestão forte da escola, não podemos ter bons resultados. Vamos ampliar isso. A diretoria da escola e a Associação de Pais e Mestres devem ser responsáveis pela administração de recursos e prestar contas à sociedade quanto aos resultados de aprendizagem e conclusão.
Folha - O que significa a autonomia na prática?
Alcyone - A diretoria tem que ter qualificação gerencial, entender de orçamento, de planejamento e estar interada da proposta de trabalho. Tem que ter autoridade para tomar decisões e ter recursos para implementar essas decisões. Eu não acredito que seja possível existir autonomia sem automia financeira.
Folha - Quais são os principais programas denominados ‘‘de vanguarda’’ a ser colocados em prática no próximo ano?
Alcyone - Eles incluem o intercâmbio de alunos e professores com Estados de outras regiões do Brasil e também com outros países. No caso dos alunos, o objetivo é melhorar o aprendizado em línguas, geografia, história e cultura geral. Para os professores, a meta é melhorar a qualidade do ensino.
Folha - Existem programas voltadas à participação da comunidade?
Alcyone - Eu também gostaria de discutir com a comunidade o programa de patronos e patronesses de escolas. Seriam empresas e entidades profissionais que se responsabilizariam pela escola. Já temos cerca de 60 empresas interessadas em participar. A idéia não é a firma ser doadora de recursos, mas declarar que essa escola é importante para ela, que se interessa pelo seu bom funcionamento.
Folha - Como essa participação da comunidade poderá ser ampliada?
Alcyone - Outro programa previsto para o próximo ano é o de padrinhos e madrinhas de alunos, dirigido a alunos carentes e esforçados. Profissionais liberais, donas de casa ou qualquer pessoa que tenha meio dia disponível a cada 30 ou 60 dias poderá reservar esse período para passar com um aluno, vendo seus cardernos, ajudando nos deveres de casa e conversando. Uma médica, por exemplo, poderá participar e ser vista por uma aluna como um modelo profissional a ser seguido. Seria mais um canal de comunicação. Se houver problemas, esse voluntário poderá entrar em contato com a própria escola ou com a secretaria.
Folha - Isso não seria uma transferência de responsabilidade?
Alcyone - Não. Seria uma co-responsabilidade. Um bom sistema educacional público tem a participação da comunidade. Por isso o eixo central não é a participação financeira, mas a dedicação de tempo e atenção.
Folha - Quais problemas devem ser resolvidos pela secretaria com maior urgência?
Alcyone - Neste momento eu tenho certeza que o ano letivo continua tranquilo. Sem dúvida, a nossa prioridade é continuar em dia com a folha de pagamento, que soma R$ 60 milhões por mês, e pagar o 1/3 de férias que não pode ser pago em janeiro. Também precisamos fazer alguns ajustes na estrutura da secretaria para estarmos mais adequados a um sistema descentralizado de ensino.
Folha - A Secretaria da Educação é muito desgastante. O que a motivou a aceitar o cargo?
Alcyone - É uma Secretaria complexa, com 110 mil funcionários, somando os professores, 1,5 milhão de alunos e 2.150 escolas. Eu não diria que é desgastante. Se eu estivesse subestimando a complexidade da secretaria, seria. Mas eu não estou. Eu sei exatamente o desafio que eu aceitei. Eu acho que é importante mudar de rumo de vez em quando e aceitar um desafio maior. Eu já sabia tudo sobre o meu outro trabalho.
Folha - No dia da posse a senhora disse que o ex-secretário Ramiro Wahrhaftig seria uma espécie de guru seu. A senhora não acha que a sua gestão pode ficar com a cara dele?
Alcyone - Vamos ver!
Folha - A senhora não tem receio que isso aconteça?
Alcyone - Não. O professor Ramiro é uma pessoa muito querida e que eu respeito muito. Eu acho que nós temos que agregar. Tem muito trabalho. Eu tenho certeza que a gestão vai ficar com a cara da Alcyone. Isso não quer dizer que eu não possa reconhecer o trabalho bem-feito.
Folha - Como a sua experiência no Banco Mundial poderá ajudá-la à frente da secretaria?
Alcyone - Eu tenho oito anos e meio de gestão. Eu tinha uma carteira de US$ 2 bilhões. Estou acostumada a ser gerente, a ser administradora num organismo internacional e, portanto, com posição política interessante no mundo.
Folha - A senhora assumiu a secretaria num momento delicado, de descontentamento dos professores. Como a senhora pretende administrar essa situação nesses quatro anos?
Alcyone - Vamos separar a questão do sindicato da questão dos professores. Eu entendo que, até agora, nós não tivemos nenhuma grande preocupação com os professores, à exceção do não pagamento do 1/3 de férias. Os professores estão na sala de aula e não se confirmou nenhuma intenção de greve.
Folha - Qual é a sua opinião pessoal sobre a decisão do governo do Estado de suspender o desconto automático da contribuição sindical em folha de pagamento?
Alcyone - Acho que é de grande mérito e defensável em termos administrativos. O Estado deve se concentrar na educação, saúde, segurança e assuntos da criança e da família. Contribuição não é uma obrigação do Estado. É uma prestação de serviço que pode ser feita por um banco ou qualquer outra empresa privada. Politicamente é bom porque é isonômico. Todo mundo tem o mesmo tratamento.
Folha - Como a senhora vê a posição da APP-Sindicato de afirmar que o corte do desconto automático da contribuição sindical em folha de pagamento seria uma represália do governo à posição contrária da instituição a alguns projetos?
Alcyone - Com a isonomia, eu acho que esse argumento se esvazia. Todas as instituições estão sendo tratadas igualmente.
Folha - A melhoria da Educação passa pela valorização dos professores. Como é possível ajustar essa necessidade à crise financeira enfrentada pelos Estados?
Alcyone - Eu tenho certeza que essa situação é temporária. O Brasil vai sair dessa, e muito bem, e o Paraná sairá ainda melhor porque tem uma posição privilegiada no País. Eu acho que é muito importante ter otimismo e cautela. Nós precisamos usar a criatividade para resolver os problemas. A crise é
um momento para usarmos
nosso talento.
Sabemos que a valorização contínua dos professores é uma condição para continuarmos obtendo bons resultados. A secretaria deve fazer isso através das lideranças locais, como as chefias de núcleo e os diretores.
Folha - Alguns presidentes de APMs estão sendo acionados pela Justiça por não terem pago obras do Proem. Isso aconteceu por atraso de repasse de recursos pelo Estado. Como administrar isso?
Alcyone - Nós tivemos seis casos documentados. Eu conversei diretamente com os empresários e pedi-lhes encarecidamente que, por uma questão de responsabilidade social, retirassem os processos e todos foram retirados. A Secretaria vai exercer o seu papel de assessoria técnica às APMs, já que a compra de material foi compartilhada, feita pelas associações, mas dentro de um acordo com a secretaria. Não existiu má- fé ou atraso burocrático no repasse dos recursos. Isso aconteceu devido à situação macroeconômica em que o Estado também está inserido. As APMs serão juridicamente protegidas pela Secretaria.
Folha - Como o Paraná está solucionando o problema da falta de salas de aula?
Alcyone - Já foi solucionado. Foi um problema localizado e não aconteceu em função de uma demanda maior que a prevista. Isso atingiu 5 mil alunos, menos de 0,5% do atendimento da rede. Não faltaram vagas, mas houve procura localizada, concentrada em alguns colégios que não tinham disponibilidade para atender a todos os interessados. Outra situação é o aumento da procura devido ao crescimento de uma região. Escolas que cederam sua biblioteca ou ao salão nobre para atender provisoriamente os alunos, têm a promessa da Secretaria de uma solução definitiva no próximo semestre.
Folha - Como a senhora pretende conduzir a questão do plano de carreira, cargos e salários dos professores, já que as propostas apresentadas no ano passado foram rejeitadas pela categoria?
Alcyone - Pretendemos continuar o proceso de amadurecimento do plano, com discussão das propostas e incorporação de idéias. Eu acho que até o final do ano é possível concluir o plano para colocá-lo em prática no ano 2000. A Secretaria pretende discuti-lo com diretores, com grupos que representem professores e fazer audiências com a comunidade. A intenção é ouvir os segmentos interessados e explicar as propostas. Quanto maior for a capacidade de articular a proposta e de ouvir comentários construtivos, melhor será o plano. A discussão não deve ser apressada, mas acontecer com a mesma ponderação do ano passado.


Setor tem prioridade
Folha - A senhora acha que, em função da crise econômica, existe risco de a Secretaria da Fazenda decidir mais sobre educação do que a própria pasta?
Alcione - Muito pelo contrário. O apoio à Educação tem sido unânime. O nosso governador e os secretários que compõem o Conselho de Reestruturação e Ajuste Fiscal têm dado prioridade à Educação.
Folha - A Secretaria da Educação vem sendo muito prejudicada pelo ajuste fiscal do Estado?
Alcyone - Não. Privilegiada, relativamente, já que a área é prioridade desse governo. Eu não tive nenhuma dificuldade até agora. Toda a atenção necessária foi dada à Educação.
Folha - Então, há dinheiro suficiente para a Educação?
Alcyone - Nós temos mais contas a pagar do que já conseguimos pagar e temos mais a fazer com o dinheiro. Então, dentro da gestão séria e responsável que o Estado está fazendo dos recursos disponíveis, não dá para dizer que está sobrando dinheiro.

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