Pastor confirma ter intermediado dossiê
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de novembro de 1998
J.Paulo da Silva e Gilse Guedes Agência Estado 
O Ministério Público e a Polícia Federal do Rio de Janeiro podem convocar o pastor evangélico Caio Fábio para que ele revele o nome de seu amigo da Flórida (EUA), que lhe teria dito que pessoas teriam um dossiê apontando uma suposta conta mantida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e colegas tucanos nas Ilhas Cayman. O pastor confirmou ontem que procurou, cinco dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, o candidato do PPS à Presidência, Ciro Gomes, para o qual contou a história. Segundo Caio Fábio, Ciro Gomes interessou-se pelo caso, mas alegou que não saberia como adquirir a documentação.
Sei disso há muito tempo, teria dito Ciro, segundo reproduziu Caio Fábio. Eu conheço uma pessoa que sabe como ter acesso à documentação, respondeu o pastor. Diante da afirmativa de Caio Fábio, Ciro Gomes retrucou: Mas isso tem um preço. Segundo ainda Caio, o amigo da Flórida lhe contara que as pessoas que tinham o dossiê cobrariam US$ 1,5 milhão. O candidato do PPS, então, prometeu um contato mais tarde. Dias depois, de acordo com Caio Fábio, uma pessoa ligada a Ciro, cujo nome não revelou, o procurou informando que o candidato teria interesse no dossiê, mas que não havia conseguido recursos suficientes para comprar o material.
Se houver sinalização de que isso tenha ligação à escuta telefônica no BNDES, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal poderão ouvi-lo, bem como os demais envolvidos, disse a procuradora federal Silvana Batini, responsável pelas investigações sobre o grampo feito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Conversas telefônicas do presidente da instituição, André Lara Resende, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e até mesmo do presidente Fernando Henrique foram gravadas e também usadas como instrumentos para a chantagem.
Caio contou ainda que há cerca de 15 dias um amigo, que também não divulgou o nome, o procurou dizendo que, assessores do ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PPB) haviam obtido o dossiê. Ele teve dois contatos com esta pessoa e a primeira foi às vésperas do segundo turno.
O pastor reuniu-se, cinco dias antes do caso chegar aos jornais, com o ex-secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge, para o qual fez um amplo relato sobre o caso. O pastor manifestou temor de que o assunto fosse usado como chantagem e Eduardo Jorge lhe revelou que o governo federal já tinha conhecimento do assunto e estava investigando.
O Eduardo Jorge disse que o governo federal estava de olhos abertos, disse o pastor, garantindo que nunca teve acesso à documentação. Ele revelou que esta pessoa da Flórida é seu amigo íntimo e trabalha no mercado de capitais. Caio Fábio lembrou ainda que as pessoas que tinham o dossiê estavam interessadas em entregá-lo a políticos de esquerda que tivessem coragem de divulgá-lo.


