Treze dias após ser acusado de ter intermediado o oferecimento do ‘‘Dossiê Cayman’’ a partidos de oposição durante a campanha eleitoral, o pastor Caio Fábio d’Araújo Filho anunciou ontem, de Miami, estar renunciando à presidência da Fábrica de Esperança. Em nota divulgada via Internet, o religioso atribuiu sua atitude a supostos ‘‘atos políticos de retaliação’’, inclusive medidas da Prefeitura do Rio que atingiram a instituição: o cancelamento do apoio material a uma creche e a retomada de um terreno. Segundo ele, as iniciativas prejudicam ‘‘quem nada tem a ver’’ com suas ‘‘ações pessoais’’ e, por isso, é melhor sair.
‘‘Primeiramente, o recurso que a Prefeitura do Rio de Janeiro dava para a alimentação de aproximadamente 300 crianças que são assistidas nas duas creches da Fábrica foi sumariamente cortado, como se as crianças ou a instituição em si fossem responsáveis por minhas (ações)’’, afirmou o reverendo no texto. ‘‘Hoje, fui informado de que a licença para o posto de gasolina que fora dada à Fábrica de Esperança (ali se iniciaria a construção de um posto-escola, com cursos profissionalizantes), foi cancelada 20 dias antes do prazo que a instituição tinha para pagar a licença.’’ Caio Fábio afirmou ainda estar ‘‘triste e angustiado’’ com os acontecimentos em que se envolveu.
‘‘Deus sabe o sacrifício que fizemos para trazer a Fábrica de Esperança à luz e para fazê-la chegar onde, pela graça de Deus, chegou’’, disse o pastor no texto. ‘‘Não posso deixar que aquilo que construí com sacrifício seja destruído em razão de ações minhas, que, se equivocadas ou não, nada têm a ver com as 12 mil pessoas que são assistidas mensalmente nos 54 programas sociais que funcionam na Fábrica de Esperança.’’ Nos últimos dias, foram levantadas supostas ligações do religioso com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, acusado por setores do governo de estar por trás da documentação.
O dossiê reunia supostas provas da existência de uma empresa nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal do Caribe (a CH, J & T), que seria do presidente Fernando Henrique Cardoso, do ministro da Saúde, José Serra, do governador de São Paulo, Mário Covas, e de Sérgio Motta, que morreu em abril quando era ministro das Comunicações. A empresa teria US$ 368 milhões em contas. A papelada, considerada falsa por peritos ouvidos pela imprensa, foi oferecida por Caio Fábio aos candidatos a presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Ciro Gomes (PPS). Os dois recusaram.
Desde que apareceu como envolvido na história, o pastor tem dado sinais de desconforto. Inicialmente, negou envolvimento no caso. Depois, confrontado com novas informações, admitiu ter agido, inicialmente, para tentar fazer chegar a papelada à frente das esquerdas. Apurou-se que, com a senadora Benedita da Silva (PT), ele procurou a coligação em agosto, no Rio, dizendo conhecer alguém que poderia levar a um grupo que tinha o material. Por determinação de Leonel Brizola (PDT), foi montado pelo advogado Nilo Batista um grupo encarregado de checar os documentos.
Mas o dossiê nunca chegou à esquerda. Os donos da documentação passaram a exigir dinheiro (fala-se de US$ 4 milhões), e a frente das oposições desistiu, assustada pela possibilidade de estar sendo vítima de uma armadilha. Caio Fábio alega que nunca fez nenhum pedido de dinheiro.
O prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde (PFL), não quis se pronunciar sobre o assunto. A secretária de Desenvolvimento Social, Wanda Engel, contou que no meio desta semana recebeu uma determinação de Conde para que rompesse o contrato. ‘‘O prefeito considerou que o pastor Caio Fábio não é mais um gestor confiável dos recursos, diante do noticiário que tem sido veiculado’’, disse ela.Arquivo FolhaCaio Fábio: ‘‘Não posso deixar que seja destruído o que constru풒Wilson Tosta
e Murilo Fiúza de Melo
Agência Estado

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