''PASSEI DE HERÓI A BANDIDO''
Folha Por que agora você resolveu falar e revelar parte do que sabe?
Jordão Depois que aconteceu isto, que eu fui acusado, a minha vida mudou. Passei de herói, que sempre fui, para um bandido. Eu nunca fiz isto. Tudo o que eu fiz foi cumprindo determinações superiores, nunca fiz nada por minha conta, na minha vontade, dentro da Casa Militar ou no BPtran onde estive. Sempre foi a mando de alguém.
Folha Inclusive grampos?
Jordão Grampos eu nunca fiz. Pelo contrário. Sempre fui um que combati a espionagem eletrônica em telefones. A Casa Militar deve ter documentos que foram preparados por mim sobre problemas de grampos no governo.
Folha Quem poderia estar querendo jogar toda esta responsabilidade na suas costas?
Jordão É muito fácil dentro da Polícia Militar a corda arrebentar do lado mais fraco. E eu sou o lado mais fraco nesta história. Eu sei demais e é este o problema.
Folha Sabe demais o quê?
Jordão A Inteligência trabalha com todas as informações possíveis a respeito do governo. Eu sou uma caixa de surpresas dentro do governo.
Folha O seu advogado (Peter Amaro de Sousa) deu declarações de que o coronel Vieira é irresponsável, corrupto e arbitrário. Você tem conhecimento de algo que possa desabonar a conduta do coronel?
Jordão É contra o regulamento censurar atos de superiores. Neste caso, não posso falar nada. Superior é superior e se eu falar, posso ser preso.
Folha Você chegou a ter algum problema com o coronel em campanhas políticas?
Jordão O coronel Vieira sempre foi meu amigo. Frequentei a casa dele, ajudei ele muitas vezes (lágrimas), ele também me ajudou. Mas a Polícia Militar tem uma ala a favor dele e outra contra. Quando fui chamado para esta campanha, eu fui com dois profissionais que não eram da ala dele. Acabei sendo rotulado como ala anti-coronel Vieira. Talvez até minha saída da inteligência tenha ocorrido em função disto.
Folha Ele mudou com você depois disto?
Jordão Totalmente. Ele nem me cumprimentava no corredor. Aliás, ele nem me cumprimenta. Um certo dia eu fui chamado no gabinete do Dr. Gerson para tratar de assuntos que não posso falar porque o regulamento de salvaguarda de assuntos sigilosos não me permite. O coronel Vieira estava presente. Quando ele viu que nós iríamos nos encontrar no pátio, ele deu a volta. No ano passado, quando fui chamado para trabalhar na segurança do Cassio, ele me chamou e me humilhou. Chorei por duas horas.
Folha Você teme ser expulso da Polícia Militar?
Jordão Sim. Nunca tive inimigos dentro da Polícia Militar, sempre tive amigos. Só que a partir do momento que a Casa Militar me mandou embora, todos me viraram as costas. Inclusive os amigos da Casa Militar. Estou sendo visto como o pior bandido da história e não sou. Abro minha conta bancária, abro mão de tudo. Vejam que eu não tenho nada.
Folha O que você pretende fazer agora?
Jordão Não sei, sinceramente não sei. Vou me apresentar dia 24 de maio e não sei o que minha vida vai ser.
Folha O que te fez falar tudo isto agora. Você disse que vai preso, que tem medo. Por que dar a entrevista neste momento?
Jordão Por que é a única garantia que eu tenho neste momento. Se eu não falar, daqui a pouco eu estou morto e ninguém sabe porque eu morri. Agora se eu morrer, todos sabem porque. (L.P.)





