Parte da esquerda assume nova postura
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de dezembro de 1997
Agência Estado Brasília 
Arquivo FolhaTendênciaRoberto Freire (PPS-PE): A saída é fazer como a esquerda da Europa, que venceu a perplexidade Enquanto parte da esquerda nacional persiste na disputa interna, uma vertente moderna começa a pensar em novas formulações adequadas à sociedade globalizada. Nesta tentativa de reciclagem, a esquerda européia ressurge como um dos paradigmas, agora com outros ícones, como o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, e o socialista Lionel Jospin, premier francês. A saída é fazer como a esquerda da Europa, que venceu a perplexidade e está afirmando os valores esquerdistas neste processo de integração, afirma o senador Roberto Freire (PPS-PE).
Aos olhos dos políticos brasileiros, o líder do novo trabalhismo inglês parece exercer um fascínio de alcance pluripartidário. O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, na semana passada em Londres, sentir uma admiração especial por Mr. Blair. Vejo-o como modelo para o que estou tentando fazer no Brasil. Também parte da esquerda gosta de Tony Blair, a ponto de incluir medidas adotadas por ele na Inglaterra no programa de governo para as eleições de 1998.
A nova configuração do setor privatizado pode sugerir a criação de um imposto especial sobre o lucro extraordinário das empresas que absorveram o setor público, como o proposto por Tony Blair na Inglaterra, afirmam segmentos do PT, PDT, PC do B e PSB na Plataforma comum das oposições, um esboço do programa de governo que pretendem executar caso cheguem ao poder no ano que vem. Para combater o desemprego, pensam em criar programas emergenciais para o primeiro emprego, à semelhança daquele adotado por Jospin, na França, e o programa de empregos para jovens, de Tony Blair.
O governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, do PT, discorda da iniciativa de se buscar inspiração no modelos europeus, embora não seja contrário a que se copiem experiências bem sucedidas. A recíproca, de os franceses copiarem projetos brasileiros, também acontece, diz o governador. O trabalho social de Jospin de contratar gente para ser guia de museu é baseado no meu programa de bolsa-escola; inventei antes deles.
O ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro, petista militante no setor mais moderno do partido, acredita que a tarefa da esquerda pensante hoje é propor projetos de desenvolvimento econômico contrário ao projeto de neoliberalismo e instituir regulações para que a economia se desenvolva conforme projeto humano. Como as transformações feitas na social-democracia européia, explica.
A dificuldade para o êxito dessas tentativas de reciclagem, segundo Roberto Freire, é que alguns quadros da esquerda se arrepiam quando se fala em globalização, ironiza ele, um dos descendentes do comunismo. Opiniões como esta têm rendido inúmeros ataques ao senador do PPS, como o do atual prefeito da capital gaúcha, Raul Pont, um petista da ala Democracia Socialista do partido. Não achamos que estamos em crise ideológica ou política, mas tem setores da esquerda que passaram para o outro lado, de mala e cuia, critica Pont. Outro dia, o Roberto Freire veio aqui: só faltava assumir o governo Fernando Henrique, de tão governista que estava.
O senador responde que é uma desqualificação fugir do debate, porque quem está criando alternativas somos nós, referindo-se à possibilidade de sair do pequeno PPS uma das opções de presidenciáveis para o ano que vem, o ex-ministro da Economia Ciro Gomes. Um estorvo para o sonho da candidatura única de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.
O prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, do PSB, é um crítico de posturas arraigadas da esquerda. Ele lamenta que a esquerda não tenha sabido aproveitar a última crise financeira e o pacote fiscal do governo para refletir politicamente - o que a sociedade está fazendo, observa. Para o prefeito, o pacote possibilitou duas leituras políticas, não captadas por seus pares de esquerda.
A primeira foi a perplexidade: o cidadão está se perguntando como pode algo que acontece na Ásia refletir na sua vida aqui. O cidadão está perplexo e vulnerável ao que acontece no outro lado do mundo, diz. A segunda leitura política foi a percepção, pela sociedade, do sentido claro da palavra globalização. Ela compreendeu a falácia da globalização e sua vulnerabilidade, afirma Célio de Castro, para quem a crise na Ásia e o pacote serviram para mostrar que são os donos do dinheiro em nível mundial que comandam o processo.


